A obrigação de fazer rir
Imagine um reality show flagrando a ação da polícia nas ruas, o cotidiano frio, duro, violento mas não levado assim tão a rigor, com Robert De Niro e Eddie Murphy como os homens da lei, o primeiro a contragosto e o parceiro querendo porque querendo começar carreira como ator, ambos orientados por um professor de arte dramática vivido por William Star Trek Shatner como ele mesmo. Não é imperdível? Pois seria, não houvesse tanta gente empenhada em tornar esta história sempre e sempre engraçada. Este, de fato, é o maior problema de Showtime, a partir de hoje em lançamento nacional (veja a programação de cinema nesta página).
De Niro é Mitch Preston, detetive da região central da polícia de Los Angeles. Alguém com os problemas habituais do estereótipo no cinema: precário relacionamento afetivo, síndrome do solitário (aquele que nunca precisa de um parceiro nas ruas), mau humor, sinais de truculência. Eddie Murphy é Trey Sellars, patrulheiro tagarela que não aprendeu a ser tira e que vive com o showbusinness na cabeça e uma imensa vontade de ser ator. Durante operação contra o tráfico de drogas, uma equipe jornalística de tevê chega ao local e atrapalha a ação. Um policial é gravemente ferido e o descontrolado Mitch dispara contra a objetiva de uma câmera. Como punição, ele deve escolher entre pesadas sanções disciplinares, como a suspensão, ou aceitar a bizarra proposta de poderosa executiva de tevê (Rene Russo): protagonizar, como máximo de realismo, um reality show e ser o centro da ação policial, levada para dentro da sala do telespectador. Para completar, ela providencia como parceiro o apatetado Trey. A estratégia do sucesso é espremer ao máximo a incompatibilidade entre os dois e em seguida explorar a amizade que vai nascer entre eles.
Sem muita noção de coerência, e na desenfreada busca da hilaridade, Showtime mistura sátira, paródia e comédia. Mas as citações e ambições são tantas, e as situações tão previsíveis que as lembranças se embaralham na cabeça do espectador, saltando de 48 Horas para Arma Mortífera, de Um Tira de Beverly Hills a Hora do Rush 1 e 2, com pitadas de 15 Minutos e outros títulos diversos. O filme é melhor em sua primeira metade, quando dois principais personagens interagem como seres humanos. De Niro e Murphy mostram boa dose de química mútua e timing, respectivamente opondo pragmatismo policial e entusiasmo da aptidão artística. É nesses momentos que Showtime ilustra à perfeição o que se pode chamar de o poder do carisma: o filme só se deixa ver por causa do charme de Murphy e da presença sempre marcante de De Niro. A sofrível direção, apoiada em roteiro idem, dispara em direções diversas e erra na maioria das vezes - a maior vítima é René Russo, um desperdício -, mas acerta na mosca quando coloca em cena William Shatner como um professor de arte dramática tentando ensinar interpretação a...Robert De Niro. É grande anedota do filme, e acaba sendo muito pouco.





