A obra-prima de Eurípedes na adaptação de Jean-Paul Sartre
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quinta-feira, 06 de dezembro de 2001
Francelino França<br>De Londrina 
O solitário e melancólico Eurípedes (480 AC-406 AC) escreveu ''As Troianas'' em 425 AC. A tragédia fazia parte de uma trilogia, juntamente com ''Alexandre'' e ''Palamedes'', peças que se perderam no tempo. De suas 93 peças, resistiram aos séculos apenas 19, dentre elas ''Medéia'' e ''Hipólito''. A tragédia ática clássica morreu com Eurípedes, mas nasceram dali fundamentos de toda a dramaturgia ocidental. Daí reside a importância de se resgatar sua obra.
Tróia ocupava um lugar estratégico no noroeste da Ásia Menor, onde as rotas marítimas se encontravam. Banhada pelo mar Egeu, a cidade se tornou um grande centro econômico, político e militar. O autor apresenta Tróia no momento em que os gregos dizimam o que restara da cidade. Com ''As Troianas'', Eurípedes denunciava o imperialismo colonial de Atenas. Sartre, por sua vez, revelava a soberba da França sobre a Argélia.
Por isso, a carga de sofrimento humano contida em cada ''ai de mim'' retrata o caráter pacifista da obra, mostra a luta pela soberania e faz emergir as relações afetivas fragilizadas no limiar da implosão sentimental. A história reitera a decomposição territorial e emocional. O pretexto para o desencadeamento da guerra é vingar o rapto de Helena por Páris. Mortos os homens, as troianas são feitas escravas dos gregos. Hécuba, rainha de Tróia e viúva de Príamo, lamenta a sorte diante das ruínas fumegantes da cidade.
O arauto Taltíbio chega diante da devastada Tróia e anuncia o destino funesto das sobreviventes: servir aos gregos. Hécuba servirá a casa de Ulisses, a filha Cassandra será concubina de Agamenon. Andrômaca, nora de Hécuba, foi exigida por Neoptolomeu. Este pede a execução do filho de Andrômaca, para que não sobreviva nenhum herdeiro. Antes da partida das troianas, surge Menelau, o incendiário de Tróia, que se depara com a sedutora Helena, considerada a responsável pela peleja entre gregos e troianos que durou dez longos anos.
Eurípedes arregimentou um exército de personagens que retomam a primitividade mitológica. Todos são nômades na tragédia, exceto Hécuba. A rainha viúva e boa parideira foi mãe de 17 filhos, entre eles Heitor grande guerreiro Cassandra profetisa e sacerdotisa e Páris aquele que raptou Helena, esposa dissimulada de Menelau, rei de Esparta. Andrômaca também está na galeria de personagens nômades, juntamente com o arauto Taltíbio. No epílogo, o autor colocou na voz de Poseidon, deus do mar, a incumbência de advertir: ''Morrereis por isso. Todos''.
A obra intencionalmente pacifista que dá voz aos subjugados é uma reflexão sobre o limite da resistência humana à dor. E faz uma conexão entre os rostos assustados de sobreviventes das guerras que estampam as páginas dos jornais nos dias de hoje. A obra é uma metáfora para reflexão se há realmente vencedores e vencidos.


