São Paulo, 15 (AE) - A obra revolucionária de Joseph Beuys (1921-1986), sem a qual é impossível pensar a história da arte na segunda metade deste século, chega a São Paulo. Apesar de não ser retrospectiva, "Os Múltiplos de Beuys", mostra que será inaugurada quinta-feira no mezanino da Galeria do Sesi, traça um panorama amplo da obra do artista alemão, percorrendo quase 20 anos de sua produção. São 47 trabalhos (sete peças únicas) que funcionam como pistas para a compreensão do complexo processo criativo do artista. "Sua arte ainda faz barulho, depois de tantos anos", afirma Paola Colacurcio, proprietária das obras - que já foram expostas em Vitória, Fortaleza e no Recife.
Isso porque para Beuys o que importa não é o objeto artístico, mas o pensamento e a ação artística. Para ele, não importa o resultado formal da obra. Beuys defende a idéia de "escultura social", afirmando que qualquer um é artista. A música, por exemplo, era vista por ele como "escultura fluida". "Uma das molas de Beuys, com efeito, foi a idéia de que tudo podia ser arte, que todos e cada um eram artistas e que princípios como o da qualidade (da artesania, da perícia no metiê) não cabiam mais na nova realidade", escreve José Roberto Teixeira Coelho, diretor do Museu de Arte Contemporânea - instituição responsável pela vinda da mostra a São Paulo - no catálogo da mostra. Transformação Social - Beuys vai além. Seu conceito era de que a arte era transformação não apenas do indivíduo, mas da sociedade. Beuys chegou a candidatar-se pelo Partido Verde alemão e chegou a mencionar a idéia de realizar uma "Quinta Internacional", já que a Terceira e a Quarta (bolchevique e trotskista, respectivamente) falharam. Ele luta contra o racionalismo econômico e industrial e busca resgatar associações mágicas e arquetípicas que permitiriam o surgimento de um homem íntegro, harmônico.
"Me dei conta de que o artista pode desempenhar um papel importante na cura de um trauma social", afirmava o artista. Se Beuys foi alçado por muitos como um gênio, "um filósofo público da arte, um manifesto estético vivo", nas palavras de Teixeira Coelho, ele também foi duramente criticado por promover uma excessiva estetização do discurso político. "A mistura que Beuys fazia de radicalismo social, mistificação xamanista e capacidade empreendedora, aliada a uma intuição genuína do excepcional, produziu um conjunto de trabalhos que muitas vezes são uma alegoria da posição do artista na sociedade contemporânea", escrevem os críticos ingleses Charles Harrison e Paul Wood em "Modernismo em Disputa".
É essa polêmica que encanta Paola, que considera Beuys "o pai da arte contemporânea". "Esse seu conceito mais social
político, ainda dá choque e era isso que ele queria", explica ela. Apesar da ênfase dada ao caráter conceitual da obra do artista, a pesquisadora - que vive no Brasil há quatro anos - também destaca a capacidade de suas peças de emocionar, de deleitar o espectador. A combinação de elementos altamente simbólicos muitas vezes mexe com o público mesmo que ele não disponha do glossário Beuys, ou seja, da lista de significados que o artista atribuía a alguns elementos.
Uma série de materiais foram explorados recorrentemente por Beuys, muitas vezes por razões autobiográficas. Jovem piloto da força aérea nazista, ele tem seu avião derrubado por baterias antiaéreas russas em 1943 e é salvo por uma tribo nômade tártara
que o cura de graves feridas cobrindo-o de gordura animal e enrolando seu corpo em feltro. Desde então o feltro e a graxa tornam-se elementos constantes de seus trabalhos. Mas Beuys também se envolveu com a doutrina antroposófica e lançou mão dos mais diferentes arquétipos, chegando a criar uma assinatura em que seu nome se funde com uma cruz.
Paola diz ter descoberto a arte a partir da obra de Beuys. Ela chegou a conhecer o artista em 1985 (pouco antes de sua morte). Na ocasião ela trabalhava para a galeria do renomado marchand napolitano Lucio Amelio e teve a oportunidade de acompanhar o processo de criação de algumas de suas obras. É o caso, por exemplo, de "Capri-Batterie", um de seus trabalhos preferidos. A lâmpada amarela com a qual a obra é feita foi comprada por Beuys em Nápoles, como repelente de mosquitos. Com um gesto de uma simplicidade estonteante (conectá-la a um limão)
o artista retoma um tema que lhe é caro, o da preservação da natureza.
O amarelo (cor do sol e, portanto, da energia), aliás, é comum em seu trabalho. "É ela que dá energia ao homem para sobreviver", explica Paola, ressaltando que "no começo dos 70, quando não havia Greenpeace, ele já falava da natureza, da preservação, trabalhava com essa idéia da imanência, da energia nos objetos". Ela lembra que na caixa do múltiplo está escrito: "A cada mil horas trocar a bateria". Ordem que ela diz cumprir à risca. "Eu quero que a lâmpada sempre fique acesa", diz.
Várias das obras que serão expostas no Sesi remetem a momentos importantes da polêmica trajetória de Beuys. Há por exemplo a bela fotografia "A Democracia É Engraçada", que mostra o artista saindo da Academia de Artes de Dusseldorf tirado pela polícia, após ter ocupado o prédio para defender oportunidades iguais de educação para os jovens. Na foto ele está usando o chapéu de feltro que usava para esconder as cicatrizes de seu acidente e que se tornou sua marca registrada.
A grande maioria desses trabalhos são frutos de suas "ações" (termo que o artista usava para definir os happenings nos quais mesclava as linguagens da performance e da instalação). Há por exemplo imagens do programa de televisão durante o qual segurou um cartaz no qual estava escrito "o silêncio de Duchamp está sendo sobrevalorizado". Segundo Paola, sua intenção não era atacar Duchamp, mas fazê-lo sair da passividade. E as sete obras únicas da mostra são na verdade anotações, espécies de esquemas mentais que Beuys fazia quando ia expor suas idéias. Vídeos - Segundo Paola, Beuys tinha uma relação intensa com a Itália. Foi lá que ele descobriu que queria ser artista, durante a Segunda Guerra. E essa ligação é colocada em destaque na atual exposição. Além de várias das obras terem sido feitas em ações realizadas nesse país, quatro dos cinco vídeos que serão exibidos paralelamente à mostra são italianos (eles serão mostrados ininterruptamente em uma sala anexa). A única exceção é o lendário "I Like America and America Like me". O filme é o registro da ação em que o artista passa dias preso com um coiote numa galeria de Nova York.
Para facilitar a integração do público com a obra de Beuys, além do ciclo de vídeos foram organizadas uma mesa-redonda (quinta-feira, antes da festa de inauguração, às 17 horas) e uma visita guiada com Paola Colacurcio (no dia 18, às 17 horas). A última grande exposição de Beuys na cidade ocorreu em 1992, no Masp. A obra do artista também foi mostrada em duas Bienais de São Paulo (as de 1979 e 1989).
A exposição de Beuys foi trazida a São Paulo pelo Museu de Arte Contemporânea de USP, que durante todo esse ano será responsável pela programação do espaço da Galeria de Artes da Fiesp. Desta forma, será possível - ao menos temporariamente - dar uma maior visibilidade ao acervo do museu universitário, normalmente restrito à sede pouco visitada da cidade universitária.
Parte do calendário, que inclui uma exposição de obras de Di Cavalcanti pertencentes ao museu ou uma mostra de trabalhos conceituais da coleção do MAC, já está programado. Infelizmente, a de Beuys teve de ocupar o mezanino. Trata-se de um espaço pouco adequado a exposições pois tem uma série de interferências visuais como grandes portas de metais que ocupam toda uma parede. Serviço - "Os Múltiplos Beuys". De terça a domingo, das 10 às 18 horas. Centro Cultural Fiesp. Avenida Paulista, 1.313. Até 19/3.

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