A obesidade vira show
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de junho de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
ReproduçãoOlivier Hardy: o gordo pedante do cinemaSe não houvesse gordos, com certeza eles seriam uma invenção do cinema. Mais precisamente, da comédia cinematográfica. Desde os primórdios os realizadores entenderam que risos e obesidade eram uma fascinante combinação, ainda que perversa. O problema desta relação do cinema com os obesos sempre foi o grau de crueldade. Uma relação mais estreita entre o riso e o grotesco passou a gerenciar as intenções de roteiristas e diretores. Ao olho da câmera só interessava explorar a massa enorme e suas consequências para o meio ambiente. Neste sentido, o pastelão, a comédia física, de aparências, foi por excelência o território de gordos de todas as dimensões. E se nos domínios do drama era necessário um contraponto como fator de descontração, eis que surgia em cena um gordo estúpido ou atabalhoado, mas sempre estereotipado.
ReproduçãoStan Laurel: um contraste para o gordo
Mas a dignificação do gordo cinematográfico seria só uma questão de tempo. Ironicamente, através das graças criativas de um magro. Impossível imaginar dois tipos tão díspares e tão assemelhados. Stan e Ollie. Apesar do contraste físico e psicológico, o magérrimo inglês Arthur Stanley Jefferson e o pesadíssimo norte-americano Oliver Norvelle Hardy contrairam uma das mais consumadas uniões artísticas de que se tem notícia no rarefeito universo do show businness. No avassalador sucesso da dupla, que dura mais ou menos duas décadas a partir do final dos anos 20, a gordura deixa de ser depreciada. Oliver Hardy, o Gordo, eterniza um tipo sempre mal-humorado, pedante e arrogante não por causa da obesidade mas apesar dela. Ele é o fiel companheiro de aventuras e trabalhos de Stan Laurel, o Magro, complemento perfeito de uma fórmula vitoriosa, muitas vezes imitada mas jamais igualada.


