A obesidade, segundo Hollywood
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de fevereiro de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha 
Quem viu e ainda se lembra dos escatológicos e selvagens Quanto Mais Idiota Melhor, Quem Vai Ficar com Mary e Eu, Eu Mesmo e Irene sabe que os manos Bobby e Peter Farelly não são exatamente as pessoas mais indicadas para apelar à melhor natureza do ser humano. Especialistas em humor de banheiro de rodoviária, celebrantes bizarros e impunes de todas - repetindo: todas - as funções fisiológicas do organismo humano previstas mas não necessariamente tornadas públicas, eles agora tentam surpreender transitando em área mais palatável e posam de sentimentais. O Amor é Cego, em lançamento nacional (veja a programação de cinema na página 2), é tipico produto de um moralismo hollywoodiano irrealizável, de uma ética de apenas de fachada.
No argumento de Shallow Hal, a história de Hal Larsen (Jack Black, engraçado em papeis secundários, como em Alta Fidelidade), o presumido imbecil do título original, um desorientado na vida somente preocupado com belas mulheres. Por uma dessas mágicas providenciais, Hal sofre pequena lavagem cerebral para aprender uma das mais importantes lições da vida, isto é, quem vê corpo não vê coração. A partir desse momento, ele passa a ver a obesa Rosemary Shanahan (Gwyneth Paltrow) apenas como uma bela mulher, sem nenhuma adiposidade, enquanto que para o mundo ao redor ela continua o que sempre foi, uma gorda mórbida. E por aí vai.
Talvez os Farrelly estejam simplesmente utilizando o filme como uma espécie de recado enviezado, tentando dizer através de uma fábula (sic) que não se deve julgá-los somente pela aparencia. Talvez os Farrelly se julguem uma versão contemporânea de grandes e celebrados palhaços da cena lírica, rindo por fora e chorando por dentro. Mas o problema não é a intenção dos Farrelly em tentar nos convencer de que o cérebro vê o que o coração quer sentir. Qual é o problema então ? O problema é que, ainda mais esquizofrênico do que tentar seduzir o espectador com a idéia de que gente gorda também é gente afinal de contas, o filme está repleto de piadas de gordo. Móveis estão sempre desabando sob o peso de Rosemary; o mergulho dela numa piscina levanta uma onda capaz de assustar Noé; e seu apetite voraz aparece sempre como motivo de pilhéria de mau gosto.
Em O Amor é Cego, problemas físicos são a matéria-prima do humor. Além da obesidade, outras dificuldades também desfilam diante das lentes insensíveis dos Farrelly, como o indivíduo com complicações na espinha e que passa quase todo o filme de quatro. A partir de um curtíssimo espaço de tempo, a insistência com a história da beleza interior deixa de ser algo meramente desagradável para se transformar em contos de fada de profundo mau gosto.


