Francelino França
De Londrina
O mico do verão 2.000 alterou a rotina na famosa orla litorânea carioca, com a prisão de Rosemeri da Costa Moura, 34 anos, da classe operária da zona norte do Rio de Janeiro. O marido, Antonio Saraiva, 62 anos, defendeu histericamente o direito da mulher à nudez e foi parar no xilindró, acusado por desacato à autoridade. A ferocidade adormecida em Saraiva foi despertada por 20 policiais armados. Mais do que um corpo à mostra, a coragem é sexy, como sentenciou o escritor Paulo Coelho.
O circo armado para as câmeras de televisão laçou da areia movediça antigos ícones vanguardistas surgidos no verão carioca, não por acaso vestidos minimamente. Turistas estrangeiras, sob o sol desvairado, do Rio são adeptas do topless. Uma ou outra brasileira se arrisca sem problemas.
Mas no dia 16 de janeiro último, num domingo solar, a atitude opressiva da polícia trouxe à tona um fato que dá suporte à discussão dos seios nus: a liberdade de expressão. O artigo 233 do Código Penal, de 1940, prevê pena de 3 meses a um ano de detenção para quem pratica ato obsceno. No entanto, hoje, os juristas consideram ato obsceno, um ato que contenha intenção sexual. A simples exibição não é crime. Ainda mais nos dias de hoje quando ‘‘vivemos a mais despidas das épocas’’, como observou há algumas décadas o dramaturgo Nelson Rodrigues.
Quem inscreveu o nome e imagem na memória emotiva do povo brasileiro foi a estonteante atriz Leila Diniz, a mais perfeita tradução da carioquice. Sua gravidez exposta no biquini minúsculo transformou-a num símbolo de ousadia, um referencial de comportamento em 1971. Leila era solar demais para as praias cariocas, sua rebeldia não flertava com a agressividade. Depois da antológica entrevista no tablóide ‘‘O Pasquim’’ (1969), sua língua ferina acelerou a instituição da censura prévia. Para que mostrar a sensualidade de Leila Diniz, se o que ela falava chocava muito mais?
O arrastão pela moral e bons costumes nas praias cariocas também atingiu a produtora Patrícia Casé (irmã da atriz Regina Casé), em 1980, uma das precursoras do topless. Sósia comportamental de Leila, ela tirou o sutiã para livrar-se do lacinho que estava machucando suas saboneteiras proeminentes. Foi por acaso, ninguém notou no começo que havia dispensado a peça de cima. Quando perceberam, caíram matando. Outras banhistas a imitaram. Mas a moda dos seios nus despencou rapidinho. As adeptas eram agredidas com copos cheios de areia.
Fora dos domínios da praia, outro episódio marcante aconteceu com Gal Costa. O show ‘‘O Sorriso do Gato de Alice’’ transformou sua performance em escândalo. Nas mãos do diretor Gerald Thomas, Gal mostrou os seios durante o show que denominou de ‘‘postura política’’. O jornalista Ezequiel Neves, na noite de estréia, histericamente torpedeava Thomas de ‘‘assassino, assassino’’.
Dercy Gonçalves, desfilando no carro alegórico da Escola de Samba Viradouro, no Sambódromo, também botou pra quebrar. Na época, aos 89 anos, sua ousadia – inúmeras vezes recauchutada – roubou a cena das belezas rebolativas das rainhas da bateria. Alguém se lembra do samba-enredo da escola?
Os símbolos sexuais televisivos – Feiticeria, Tiazinha, Valéria Valenssa (mulata Globeleza) – anabolisam os impulsos eróticos de milhões de brasileiros. Na Rede Globo, as atrizes Mônica Carvalho e Isadora Ribeiro, mostrando os seios nas aberturas das telenovelas Mulheres de Areia e Tieta, não causaram nenhuma indignação generalizada pelo País. Pelo contrário, elas transformaram o topless num interminável tédio visual. Um traço deixado pela moda dos anos 90 atende pelo nome de androginia chic. A constatação de que o ser nas areias escaldantes é do gênero feminino, pode ter chocado quem está se acostumando com seres deliberadamente andróginos.
O carioca já foi exaltando em verso e prosa como o rei da extroversão. Somado a isso, faz escambo e venda da imagem do Rio como um reduto erótico e sexual. O fato ocorrido na praia carioca, fermentado pelas técnicas de informação de eficácia diabólica, suscitou na psicóloga londrinense Lucianne Fernandes um questionamento: ‘‘até que ponto somos abertos à venda de conceitos novos?’. Para ela, se ocorresse em qualquer outra praia (em Ubatuba, por exemplo), se justificaria a reação, mas no Rio se não. ‘‘Temos que rever os conceitos que a sociedade paternalista e repressora nos impõe’’, argumenta.
A forma pelo qual Rosemeri Moura se comportou se deve ao fato da comerciante estar segura do seu próprio corpo e de sua sensualidade. Quando outras mulheres de forma individual resolvem se expor, estão revelando impulsos eróticos que algumas pessoas mantém reprimidos, presos num calabouço.
Lucianne Fernandes avalia esse posicionamento afirmando que algumas pessoas mantenedoras da tradição ética, moral e religiosa, entendem essa exposição como um impulso agressivo. Convém não provocar os puros. Há uma identificação de outras mulheres, e isso pôde ser verificado nos dias subsequentes a 16 de janeiro, pois muitas aderiram ao topless. ‘‘Mas isso pode despertar sentimentos de inveja’’, constata a psicóloga.
A questão ainda está boiando nessa maré do topless: por que no carnaval o nu pode ser mostrado e individualmente não? Segundo, a psicóloga a própria sociedade determina os locais em que isso é permitido e quem pode e quem não pode fazer. Rosemeri Moura foi detida e crucificada. Recebeu ameaças por telefone, deu dezenas de entrevistas, tornou-se uma celebridade no avesso e se mudou de casa para se cobrir com a pouca privacidade que restou.
Lucianne explica que a sociedade, nesses casos, age com o superego, reprimindo e sufocando os impulsos. Nos próximos verões outros casos podem pipocar. Outros seios vão encantar. Mas uma dúvida vem e vai com a estação quente: e se as rosemeris, dercys, patrícias, leilas e gals sempre estiveram certas e todos nós (os vestidos) é que estamos errados desde 1.500?O arrastão moral nas praias cariocas mostra que os seios nus ainda são totem e tabu da libertação da mulher
ReproduçõesNos anos 60, as liberadas Brigitte Bardot e Leila Diniz às vezes escondiam os seios para manter o charmeA decana das rebeldes, Dercy Gonçalves, deixou cair o sutiã num desfile carnavalesco e repetiu a dose no palco (foto)ReproduçãoAno 2000, na Barra da Tijuca, a comerciante Rosemari Moura faz topless e deflagra, sem querer, a polêmica em torno dos seios nus