A NOVA SAFRA DO HIP HOP
Nelson Sato
De Londrina
A nova safra do rap nacional entra em campo. Da leva, o Rio de Janeiro sai em desvantagem em relação a São Paulo e Rio Grande do Sul no quesito qualidade e renovação. É o que se constata ouvindo o CD de estréia do grupo gaúcho Da Guedes, o também primeiro álbum da banda carioca Nocaute e a coletânea paulista Rima Forte Novos Colaboradores da Cultura Hip Hop Mandando Suas Idéias.
Na coletânea, 11 grupos da periferia paulistana estréiam em disco com a ajuda de DJ Hum (aquele mesmo que faz dupla com Thaíde), responsável pela produção do material e pelas batidas da última faixa. São nomes desconhecidos do grande público, mas bastante populares em suas respectivas áreas onde se apresentam nas rádios comunitárias e em bailes da região e shows ao ar livre.
O disco flagra uma cena explosiva com cerca de 200 bandas se acotovelando para mandar seu recado. O CD saiu pelo selo Brava Gente e ganhou distribuição nacional da gravadora Trama. Uma versão em vinil dirigida a DJs também está chegando às lojas. Por reunir um elenco de debutantes, o repertório surpreende e pode até impressionar quem só vê monotonia no hip hop.
Já na faixa de abertura, talvez a melhor do disco, o grupo Zona Proibida ataca o vício do crack com um belo arranjo vocal e base de piano. Treta, cilada, parada errada / O caminho das pedras não leva a nada, diz o refrão. Em Assim será a Paz, outro destaque, o veterano grupo Balanço Negro funde rap e r&b reforçado pela participação de manos nos backings vocals.
Aqui, a artilharia verbal recai sobre os políticos e os racistas ricos. Inspirada também é Papo 120, uma narrativa bem-humorada do grupo Autentic Rap sobre um pilantra e um sujeito do bem que é confundido com seu sósia. O piano desponta de novo nas bases, assim como em João Maria, uma crônica sobre as mazelas vividas por um casal nordestino em São Paulo. O autor, o grupo Revolucionários MCs, capricha nos arranjos incluindo vocais soul e atmosfera jazzística na parte final da música.
Tão convincente quanto a coletânea, o álbum Cinco Elementos mostra que o hip hop é já um gênero estabelecido em todo o território nacional. Também produzido por DJ Hum sob a chancela da gravadora Trama, o disco confere status de revelação ao grupo gaúcho Da Guedes, mais um adepto das batidas lentas.
O bairro de Partenon, em Porto Alegre, é o habitat desses rapazes que criam ambientações secas e discretas como fundo para o discurso crítico. A verborragia vai da celebração do movimento hip hop à habitual imprecação contra a polícia passando por odes regionais e mensagens positivas. A faixa Cagueta na Área, produzida por DJ Zé Gonzales e Rodrigo Nuts, traz participação de Marcelo D2 e citações de Bezerra da Silva.
É um dos destaques do CD ao lado de Responder Pra Quê? (esta com beats pesados e acelerados), Tô Cansado (pontuado por backings femininos), Ipi Yei (uma crítica aos canalhas) e Poa (já transformada em hit de pistas). Completando a fornada de lançamentos, a banda carioca Nocaute é a decepção do pacote. Rendida aos clichês do rap com guitarras, apega-se ainda aos cacoetes de Chico Science, cuja influência é notável em pelo menos metade das faixas.
No disco apresentam uma versão de Diversão, na qual nada acrescentam de novo à gravação original dos Titãs. Na última faixa apelam para surdo, pandeiro e tamborim na tentativa de misturar rap e pagode. O resultado, porém, é pífio. O CD inaugura o selo Black Groove, criado pela gravadora Sony para dar vez aos ritmos negros.
O projeto é comandado por Paulo Brandão, vulgo Primo Preto, pseudônimo que ganhou quando era VJ do programa Yo! da MTV. Nocaute, porém, mancha a boa iniciativa já de saída.Três CDs chegam às lojas reunindo grupos desconhecidos do grande público como Zona Proibida, Da Guedes e Nocaute
ReproduçãoDa Guedes: grupo mostra a vitalidade do hip hop gaúchoReproduçãoNocaute: banda carioca mostra rap com guitarras e gritante influência de Chico ScienceReproduçãoColetânea reúne grupos de hip hop da periferia de São Paulo





