Alguns dizem que é teimosa coincidência, outros juram que é maldição. O fato é que as continuações de grandes sucessos quase sempre são frustradas no todo ou em partes – a ilustrar, os históricos e ilustres exemplos das sagas estelares, ‘‘Guerra’’ e ‘‘Jornada’’, ‘‘Psicose’’, ‘‘Um Homem Chamado Cavalo’’, ‘‘Sete Homens e Um Destino’’ e por aí vai. Isto se aplica a ‘‘Dr. Doolittle 2’’, em lançamento nacional a partir de hoje . Com o irrequieto Eddie Murphy à frente do elenco, o filme deveria conter uma trama mais perspicaz para conseguir seu propósito de sedução.
Tiras originalmente criadas por Hugh Lofting, as narrativas infantis do médico que falava com os animais já chegaram quatro vezes ao cinema. Na mais famosa, o musical de 1967 dirigido por Richard Fleisher, o ator Rex Harrison fazia o personagem-título mas acabava repetindo o Professor Higgins de ‘‘My Fair Lady’’. Na versão de 1998, Doolittle foi incorporado pelo carismático Murphy, responsável pela bilheteria mundial de US$ 290 milhões, carta branca para a inevitável sequela. Que chega agora, de novo com o ator, mas sem o elemento surpresa e a franca comicidade que deram o tom à primeira história.
Neste retorno, o doutor Doolittle e sua variada fauna tropeçam num roteiro elementar baseado no confronto entre a natureza e o homem. O médico, sempre tão dinâmico no atendimento a pacientes de duas ou quatro patas, deve agora dar um tempo em suas múltiplas tarefas durante os momentos em que os enfurecidos animais da floresta se empenham em salvar seu habitat natural antes que a ganância de um inescrupuloso grupo de especuladores acabe com tudo. Mas Doolittle está sempre disposto a aliviar os bichos de suas penúrias. É por isso que fecha com os ávidos empresários um insólito negócio: tentar encontrar marido para uma ursa pacífica de raça em extinção, provando que é possível a reprodução em cativeiro. Se o trato for bem-sucedido, a verde mata não deverá cair nas mãos dos urbanistas.
A luta desta farta fauna em prol do triunfo da ecologia merecia diálogos um pouco mais inteligentes e situações que, em momentos, não estivessem tão perigosamente próximas da escatologia. Embora as tímidas tentativas do diretor Steve Carr em imprimir certa inocência a esta narrativa, aqui importa muito pouco se a direção é de ‘‘a’’ ou ‘‘b’’, tal a dominação cênica da persona de Eddie Murphy. E o ator, já não é de hoje, tem essa estranha tendência a meter-se em trapalhadas nem sempre pautadas pelo bom gosto.
Enfim, ‘‘Dr. Doolittle 2’’, se não entusiasma adultos, pode ser mais uma opção para a criançada nessas férias de inverno. Pelo menos não deseduca e pode premiar a sempre fértil imaginação infantil. Afinal, quem nunca ansiou por uma resposta ‘‘falada’’ de seu bichinho de estimação?

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