A MPB é uma senhora de colo e braços generosos que, de tempos em tempos, amplia a prole acolhendo filhos bastardos de outros gêneros musicais. Nos anos 90, os cômodos de sua casa foram virados de pernas para o ar com a adoção de pirralhos oriundos do pop.
ReproduçãoBelô VellosoGraças a eles, a MPB se viu sacudida em seus valores, aplacando o ranço da tradição. Mas no CD-coletânea Gema do Novo, que está chegando às lojas num lançamento do selo Dabliú em parceria com a rádio paulistana Musical FM, os filhos recém-arrebanhados constituem uma minoria.
O ‘‘novo’’ do título refere-se mais ao ingresso recente (ou quase) dos artistas no mercado fonográfico do que propriamente a seu perfil musical. Herdeira da velha MPB, a maioria dos artistas participantes ecoa influências de um ou outro medalhão formado no calor dos festivais dos anos 60 e 70.
ReproduçãoLuiz GayottoO disco reúne 20 talentos da nova geração, cada um com uma faixa. As músicas não são inéditas: foram extraídas de discos gravados pelos artistas. Do elenco, muitos pertencem ao cast da Dabliú e o restante foi licenciado por outras gravadoras.
A maioria é pouco ou nada familiar ao grande público. Nomes como Luiz Gayotto, Ceumar, Jussara Silveira ou Kátia Freitas certamente não figuram na programação das FMs ou frequentam clipes na MTV. A coletânea é o segundo projeto bem-sucedido da parceria Dabliú-Musical FM.
ReproduçãoRita RibeiroNo final de 96, foi lançado o primeiro CD trazendo nomes como Chico César, Itamar Assumpção, Paulinho Moska, Daúde, Vânia Abreu e Karnak. A idéia da parceria partiu do criador do selo Dabliú, José Carlos Costa Neto, que a propôs aos diretores da Musical FM - uma emissora especializada em música popular brasileira e que garante farta execução para gente nova ao longo da programação.
O projeto, entretanto, não se restringe à edição dos CDs. Tão importante quanto os registros em disco é a promoção dos shows de lançamento. Repetindo o feito do ano passado no Memorial da América Latina, o lançamento do novo CD foi festejado durante quatro dias de apresentações no começo desse mês em São Paulo, só que desta vez no Teatro do Sesc-Vila Mariana.
‘‘Esse é um processo de conquista espontânea do público’’ - explica Costa Neto. ‘‘As pessoas vão ao show, compram o disco, elegem os artistas que mais gostam e passam a segui-lo daí em diante. Foi assim com o Chico César que, antes de sua consagração, foi criando audiência de boca em boca pela cidade.’’
E entre os novos escalados no projeto, qual poderá repetir a mesma trajetória do autor de ‘‘Mamãe Africa’’? A pergunta certamente não cabe ao já aclamado Zeca Baleiro, um dos participantes do CD e recentemente premiado em três categorias na entrega do Prêmio Sharp - revelação do ano, melhor música (‘‘Bandeira’’) e melhor disco (‘‘Por Onde Andará Stephen Fry?’’). Baleiro colabora com a faixa ‘‘Dodói’’, um reggae de letra debochada com participação da cantora maranhense Rita Ribeiro nos backings.
Rita é outra convidada de Gema do Novo, onde mostra a canção ‘‘Pé de Lajeiro’’, também com uma levada jamaicana misturada a ritmos regionais. Mas entre as cantoras brindadas no CD, o destaque fica com Belô Velloso, a sobrinha de Caetano e Bethania. Cantando ‘‘Toda Sexta-feira’’, ela não deixa o prestígio do sobrenome cair, embora tenha que dividir o mérito das qualidades da canção com a gaúcha Adriana Calcanhoto, autora da letra, música e dos acordes de violão.
Continuando com os participantes de parentesco ilustre, Pedro Camargo Mariano também brilha em ‘‘Encontros’’, em que remete à tradição do soul em versos doloridos (‘‘Vem, vem, vem /do meu lado / conta quem sabe o segredo da dor’’). Na coletânea, a faixa do filho de Elis Regina e César Camargo Mariano só fica abaixo de ‘‘Vaidade’’, de Luiz Gayotto.
Ainda desconhecido, Gayotto estreou em disco no ano passado com o álbum O Catarina. Sua faixa abre com um sample de Miles Davis e Herbie Hancock capturando o ouvinte com um violão percussivo arrebatador. Talvez seja a faixa que melhor traduza a ala mais moderna da MPB, que nada tem a ver - como alguns professam - com rendições postiças ao rock ou a outro gênero pop qualquer.
É a armadilha que parece engolfar a cantora Laura Finochiaro, também presente na coletânea. Além dos nomes citados, Gema do Novo traz faixas de Celso Viáfora, Silvana Stiévano, Vicente Barreto, Mona Gadelha, Madan, Lucila Novaes, Kléber Albuquerque, Augusto Martins, Daisy Cordeiro, Jambêndola.

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