São Paulo, 03 (AE) - O que anda acontecendo de novo na música brasileira? Pouca coisa, mas a baiana Rebeca Matta é decididamente uma dessas coisas (não confundir com Vanessa da Matta, que é da praia autofágica da MPB de violão e banquinho). Rebeca foi mordida por outro tipo de germe, que inclui a sonoridade própria de sua época (a eletrônica) e uma atitude de investigação, de dissecação. Rebeca, que se apresenta amanhã (04) no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, esteve aqui no início do ano, com sua banda, tocando no Crowne Plaza. Seu show tinha performance, dança, a percussão pós-industrial de Loop B e um guitarrista heavy fenomenal, Peu Souza (filho de Galvão, dos Novos Baianos).
"Bela como um lábio partido" (uma definição de Raymond Chandler), ela usa o microfone como uma extensão dos sons do corpo, arfante, se arrastando como uma felina pelo teatro. É uma mulher moderna, andrógina e sexy na medida certa, sem afetação fashion, sem teoremas fáceis para serem decifrados. Um dos destaques do show é sua releitura muito particular do samba "Barracão" (Luís Antonio e Odemar Magalhães), antigo sucesso da cantora Elizeth Cardoso. Tem também alguns standards da MPB, como "O Meu Amor" (Chico Buarque), "Como uma Onda" (Nelson Motta/Lulu Santos) e "O Amor É Velho, Menina" (Tom Zé).
"Tom Zé é uma referência de toda a vida", diz a cantora de 32 anos, que vai incluir mais uma do conterrâneo no show de amanhã à noite, "Chique Chique" (parceria de Tom Zé com José Miguel Wisnik). Além dessa nova canção, ela mistura João Bosco com Prodigy (em O Ronco da Cuíca) e interpreta "Mentira", de Manu Chao, do Mano Negra. Pegada - Formada em administração de empresas, como o conterrâneo Gilberto Gil (por sinal, o pai da cantora, o acadêmico baiano João Eurico Matta, também foi professor de Gil em tempos idos), Rebeca diz que seu som volta com uma pegada mais forte, com guitarras mais distorcidas. Loop B volta a fazer uma participação com seu "Concerto para Furadeira e Tanque de Gasolina", algo inacreditavelmente bom.
Por trás do som indefinível de Rebeca Matta está a figura do tecladista André t., seu parceiro de todas as horas. Foram os dois que começaram a alargar as fronteiras da música baiana (e brasileira, por conseguinte) com seus shows experimentais no eixo underground de Salvador. André t. (que também é integrante da banda de Carlinhos Brown) morou nos EUA durante quatro anos, estudando computação na Pensilvânia. Lá, formou a banda de rock progressivo Here, influenciada pelo guitarrista Robert Fripp, Frank Zappa e Brian Eno. Voltou ao Brasil em 1996 e já está com Rebeca há dois anos.
A base do show é o único disco de Rebeca, "Tantas Coisas", que reunia quartetos de cordas, canto lírico (Rebeca estuda canto), instrumentos de percussão indianos e marroquinos, timbres computadorizados, baião com guitarra distorcida. Logo na abertura, há uma versão feita de teclados e coro de "O Mar", do grupo português Madredeus, que encantou o seu compositor, Pedro Ayres Magalhães. Mas é provável que Rebeca grave um novo disco, no próximo ano, por um grande selo nacional. Há alguns interessados, os mais ligados.
"Vou fazer o máximo para ser ouvida pelo maior número de pessoas, mas não vou mudar uma nota do que sou e do que faço para isso", diz Rebeca, que é de pouco papo. "Eu faço o que faço movida por uma vontade mais forte do que eu", afirma. "Tantas Coisas" tem também uma versão guitar band de "O Anjo", de Milton Nascimento, um trip-hop fascinante em "Nada Será como antes", de Lulu Santos, e apoios vocais da cantora lírica Marilda Costa em música de Tom Zé.
Tudo isso está no show, com a roupagem cool e vigorosa da banda de Rebeca. A bailarina Sandra, que fazia solo em um intervalo, não estará lá. Mas sua performance será exibida em vídeo. A cantora participou no fim de semana de um evento que foi chamado de "rave nordestina", no Sesc Pompéia, ao lado de Otto, Cidadão Instigado, Narguilê Hidromecânico, DJ Dolores e outros.

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