Está cada vez mais difícil abordar temas contundentes, de forma realista, na televisão brasileira. Com o fim da ditadura e da censura dos militares, as telenovelas produzidas a partir de 1985, como ''Roque Santeiro'' e ''Vale Tudo'', pegaram carona no movimento em prol da liberdade de expressão e conseguiram tratar de assuntos como sexualidade, drogas e política. Menos de 30 anos depois do fim do governo militar, observa-se um retrocesso nesse discurso. ''Seria quase impossível fazer 'Vale Tudo' nos dias de hoje. A censura vem de todos os lados'', admite o diretor Dennis Carvalho.
Atualmente, os agentes da censura são representados pelas regras da classificação indicativa da tevê, definidas pelo Ministério da Justiça, e entidades sociais que ficam de olho em todos os passos dos autores. ''Está tudo muito chato e politicamente correto. Sou um grande defensor da livre criação e do respeito ao próximo. Mas, se escrevo uma vilã disfarçada de qualquer profissão, corro o risco de ser processado pelos sindicatos que defendem essa classe'', conta Aguinaldo Silva, autor que participou da criação de ''Roque Santeiro'', de 1985, e de ''Vale Tudo'', de 1989.
Ao lado de outros autores de novelas, como Gilberto Braga e Silvio de Abreu, Aguinaldo, que atualmente está no ar com ''Fina Estampa'', vem adotando uma postura mais cautelosa ao montar as tramas de suas novelas, com receio de uma possível reclassificação ou processos jurídicos que poderiam manchar a obra.
Em ''Duas Caras'', de 2007, o autor teve de explodir o cenário da uisqueria - um eufemismo para prostíbulo - Cincinatti, por problemas com o Ministério Público Federal, que acusou a novela de ter conteúdo excessivo de consumo de drogas, atos criminosos, erotismo e promiscuidade. ''A equipe levou um susto pois a novela poderia ser mudada de horário. Para mim, não existia nada vulgar e agressivo na minha personagem'', defende Flávia Alessandra, intérprete da dançarina Alzira, personagem central na queixa do MPF sobre a temática sexual da novela. A despeito de trabalhar na tal uisqueria, a pudica Alzira sequer fazia programa.
Para quem está dentro dos bastidores da tevê, não são apenas os órgãos do Judiciário ou os grupos sociais que reclamam de qualquer detalhe um pouco mais ousado. O grande público também encaretou. ''Estamos regredindo. A luta era contra a opressão da ditadura e agora todo mundo só quer parecer legal, correto, puro e perfeito. O sexo faz parte da dramaturgia e o horário permite'', analisa Marco Ricca, o Samir, de ''O Astro'', minissérie que recebeu muitas críticas em sites, blogs, redes sociais e na Central Globo de Atendimento ao Telespectador.
O incômodo foi causado pelas cenas de sexo e nudez dos primeiros capítulos, envolvendo seus personagens principais. Com 50 anos de carreira e também do elenco de ''O Astro'', Regina Duarte participou de produções corajosas nos anos 80, como o seriado ''Malu Mulher''. Por isso, não esconde a frustração com o esvaziamento de algumas tramas do ''remake'' , além da reedição que suavizaram as cenas de alguns capítulos. ''A pressão pública encaretou demais a tevê. Essa coisa do politicamente correto faz com que seja difícil ser criativo. É muito sutil a linha que separa o que é agressivo, da audácia criativa que pode levar as pessoas a se emocionarem'', opina Regina.
Ao longo de 2011, além das cenas omitidas de ''O Astro'', assuntos polêmicos de outras tramas também foram amenizados, como a questão homoafetiva dos personagens de ''Insensato Coração'', de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, e ''Amor e Revolução'', novela do SBT, escrita por Tiago Santiago. ''Eu e Gilberto queríamos fazer uma abordagem natural da temática gay. Polêmicas à parte, não fizemos cenas mais ousadas, que pudessem causar desconforto em alguns telespectadores'', explica Ricardo Linhares.
Já no SBT, Tiago Santiago também teve alguns personagens e sequências censuradas, mas foi um pouco mais além, com a exibição do alardeado beijo protagonizado por Marcela e Marina, de Luciana Vendramini e Gisele Tigre, respectivamente. ''O beijo foi um detalhe. Acho que a coragem do autor está em abordar o homossexualismo no contexto da novela, que se passa durante a ditadura'', acredita Gisele Tigre.

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