A 'nova cara' de Vigário Geral
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de fevereiro de 2001
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
As transformações são visíveis sempre que a arte é utilizada como instrumento de inserção social, com fins comunitários. Nos nichos esquecidos pelo estado há uma febre de resistência e reação que aflora sempre que uma proposta artística aparece como catalisadora. Este panorama é realidade atualmente em Vigário Geral, no Rio de Janeiro, que volta ao noticiário mostrando ao invés de chacinas a presença pop da banda Afroreggae.
O nome do grupo já está se espalhando por jornais, revistas e lojas de CDs, apoiados por uma gravadora major, a Universal. Até que ponto a participação de padrinhos de peso como Caetano Veloso (que canta com o grupo em Meus Telefonemas) e outros incentivadores tem a ver com a repercussão do grupo são outros 500.
O que interessa é que o primeiro CD do Afroreggae, Nova Cara, soa espontâneo e forte porque ficou na incubadora das consequências que a chacina de Vigário Geral espalhou pela localidade. Enquanto a sombra do desastre ainda se espalhava mundo afora, no olho do vendaval a reação já se esboçava. As pessoas se indignaram para evitar a recorrência da tragédia.
Nova Cara chega em um momento farto para discussões sobre música e violência. Rappers que relatam a vida nos morros cariocas, como MV Bill, também apadrinhado por Caetano Veloso, sofrem acusações de incentivo à criminalidade. Ou seja, denunciar a violência incisivamente pode ser confundido com propagá-la. Na capa do CD aparece, em primeiro plano, uma arma. No segundo plano, desfocado, uma criança a observa.
A explosão pró-cidadania do Afroreggae vem acompanhada por uma salada musical típica do suingue carioca. Neste caldeirão cabe de tudo, numa fórmula bem temperada. O ouvinte atento vai detectar ecos de congadas, samba, funk, soul, rock, embolada, rap, partido alto, maracatu, ritmos eletrônicos, zé-pereira, reggae, skratches, repente, capoeira e gritos das galeras funk do Rio de Janeiro. No palco, esse amálgama se completa com uma atitude cênica que mistura dança, luta e capoeira. Vigário Geral quer dar a volta por cima com pop de atitude.
O discurso é revolucionário e incisivo: Eu não suporto mais historinhas no meu ouvido/ do tipo se baterem de um lado da sua cara/ oferecer o outro, eu não sou Jesus Cristo/ vou logo avisar se me baterem de um lado/ eu ou encher de porrada, pois minha sina é bateu, levou/ sou uma fusão de Ogum com Xangô, diz Conflitos Urbanos. Hunidade começa com sons de tiros, brigas e palavrões. Nova Cara foi pré-lançado no Rock in Rio, na Tenda Brasil, no dia 14, onde o grupo teve boa repercussão.
Tudo começou em 1993 com o aparecimento, em Vigário Geral, da ONG Grupo Cultural Afroreggae, que depois se tornou banda em 1995. O grupo virou um centro de atividades diversificadas com um único interesse: incentivar a garotada a procurar um caminho, uma saída para a marginalidade. A ONG surgiu no local justamente para ajudar sua recuperação após a chacina.
Se não fosse essa iniciativa, provavelmente eu não estaria falando agora. Os meus ídolos eram traficantes, isso era frequente. Agora eu sou um espelho para muita gente, comenta o vocalista Ando, em entrevista por telefone.
O Afroreggae já está provando o sucesso, embora ainda tenha chão para percorrer. O grupo já excursionou pela Europa e por outros estados brasileiros. Em Minas, a banda aprendeu a fazer alguns instrumentos com o grupo Timbalelê. Esses recursos embasam a colagem de ritmos que caracteriza o disco.
Depois que o projeto Afroreggae vingou, a situação mudou em Vigário Geral: Está bem melhor, se tornou uma comunidade menos violenta. Antes, Vigário Geral aparecia apenas por sequestros, violência e polícia. Isso vem mudando. Agora queremos conhecer outros projetos sociais para dar visibilidade para eles.
A verborragia e o liquidificador sonoro do Afroreggae carregam ainda os fantasmas da chacina, uma lembrança que alimenta a expectativa de mudanças. Ao adotar referências diversas, a banda foge do bairrismo e passa a representar excluídos de forma mais abrangente. Essa, talvez, seja a maior vitória de se transformar a marginalidade em sucesso.


