A boca avermelhada de batom estampa a capa do CD. O título, ''Cantada'', explicita as intenções da cantora e compositora gaúcha Adriana Calcanhotto. ''Cantada'' é o sexto álbum de sua carreira. É o nome também da melhor faixa do repertório.
''Depois de ter você / Pra que querer saber / que horas são? / se é noite ou faz calor / Se estamos no verão / se o sol virá ou não / ou pra que é que serve uma canção / como essa? / Depois de ter você / poeta pra quê ? Os deuses, as dúvidas? Pra quê amendoeiras pelas ruas? Para que servem as ruas? Depois de ter você?'' canta ela.
A canção foi gravada anteriormente por Maria Bethânia, que a incluiu no álbum ''Maricotinha'' com o título ''Depois de ter Você''. Adriana assina nove das 15 composições do novo CD. A veia autoral sobressai ofuscando sua hesitações vocais, quase escandalosas em ''Sou Sua'', de Péricles Cavalcanti. As gravações contaram com participações especiais dos Los Hermanos, Daniel Jobim, Bossacucanova, Junior Tolstoi e Moreno Veloso + 2.
O baixista Dé Palmeira (ex-Barão Vermelho), que tocaria em apenas uma faixa, acabou como co-produtor do disco. ''Cantada'' mantém as experiências tecno levemente urdidas em ''Maritmo'' (1998), embora o material soe mais coeso. É o trabalho mais pop da artista, que parece resolver o dilema entre ser ousada e tocar em rádio.
Na primeira metade do disco, ela convida à pista em baladas repletas de apelos dançantes. Em ''Justo Agora'', canta: ''Eu ouvi dizer / que você assim / como quem não quer nada / perguntou por mim / Agora / logo agora / justo agora / Eu ouvi você / me dizer que sim / mas era silêncio o que se ouvia / quando dei por mim /Agora / logo agora / justo agora / Eu ouvi você / me dizer que sim / mas era silêncio o que havia / quando dei por mim / Agora / logo agora / justo agora / Eu ouvi dizer / que você assim / como quem não quer nada / perguntou por mim''.
Aqui, o arranjo combina batidas programadas com cello, violão e baixo acústico. Na faixa seguinte, ''Pelos Ares'', o instrumental cruza loops eletrônicos com o acordeon de Chico Chagas. É a primeira música de trabalho do CD. Faz parte da trilha sonora da novela ''Sabor da Paixão''. O travo pop do repertório é reforçado com uma versão despojada de ''Music / Impressive Instant'', de Madonna.
Adriana manipula referências com desenvoltura, não dando margens para soluções caricatas. Entre os pontos altos do álbum destaca-se a regravação intimista de ''Se Tudo Pode Acontecer'', de Arnaldo Antunes, Paulo Tatit, Alice Ruiz e João Bandeira. A letra é deslumbrante: ''Se tudo pode acontecer / se pode acontecer / Qualquer coisa / um deserto florescer / uma nuvem cheia não chover / Pode alguém aparecer / e acontecer de ser você / um cometa vir ao chão / um relâmpago na escuridão / e a gente caminhando / de mão dada / de qualquer maneira / eu quero que esse momento / dure a vida inteira / e além da vida / ainda de manhã / no outro dia / se for eu e você / se assim acontecer''.
A exemplo de seus discos anteriores, Adriana volta a homenagear poetas ilustres. Desta vez, ela recita ''Jornal de Serviço'', de Carlos Drummond de Andrade sobrepondo sua voz às batidas eletrônicas. O disco aposenta qualquer ranço embolorado de MPB eventualmente associado à cantora.

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