A nova bossa nova de Ruy Castro
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de dezembro de 2001
Haroldo Ceravolo Sereza<br>Agência Estado 
Ruy Castro afirma: ''Nunca abandonei a bossa nova.'' O jornalista, autor de ''Chega de Saudade A História e as Histórias da Bossa Nova'' volta ao seu assunto predileto com ''A Onda Que Se Ergueu no Mar'' (Companhia das Letras, 296 págs., R$ 31,50).
''Não é a mesma história'', afirma Castro. ''É um novo approach, novas interpretações.'' De fato, ''Chega de Saudade'' e ''A Onda Que Se Ergueu no Mar'' são livros bastante diferentes, embora tratem do mesmo assunto, seus títulos tenham saído de músicas que marcaram o movimento e suas capas, uma com Tom Jobim e outra com João Gilberto, construam um diálogo evidente. Se o primeiro pode ser comparado a um painel, o segundo é constituído de pequenos aprofundamentos, orientados por personagens do período da bossa nova, como Tom Jobim, Nara Leão, o mar, Brigitte Bardot e João Gilberto, e outros que os antecederam, como Orlando Silva.
Segundo informa Castro ao fim de uma extensa bibliografia, vários textos de ''A Onda Que Se Ergueu no Mar'' nasceram de artigos publicados no ''Caderno 2'' de ''O Estado de São Paulo'' e em outras publicações. E os capítulos referentes a Orlando Silva e Brigitte Bardot usaram a íntegra de sua publicação original (''Orlando'', como livro de uma caixa de CDs do cantor, em 1995, e Brigitte, na revista ''Mitsubishi'', neste ano), ''mas também foram corrigidos e aumentados''. Ou seja, não se trata exatamente de uma coletânea de artigos, mas de artigos reescritos, o que, na opinião de Castro, reconstituiu a unidade em torno dos temas tratados.
Desse modo, o encontro do autor com Tom Jobim, para uma entrevista que acabou não sendo publicada, no dia da morte do estudante Edson Luís, no restaurante Calabouço, em 1968, acaba sendo uma bela introdução para o assédio dos jornalistas a Brigitte Bardot e seus banhos de mar em Búzios, às vésperas da chegada dos militares ao poder, em 1964 - e também à trágica relação de Orlando Silva com a heroína, na pré-história da bossa nova.
O livro também tece considerações apropriadas sobre o desastre das traduções das letras de Tom Jobim para o inglês, que perderam sentido e métrica, além de fazer uma dura crítica ao descaso com a memória gráfica e musical da indústria do disco do Brasil. Mas nada ilustra melhor o ''engajamento'' de Castro que o último capítulo, João, que trata, evidentemente, de João Gilberto.
Além de escrever sobre as eternas esquisitices do cantor - o autor de ''A Onda'' defende com ardor que a história do gato que se jogou da janela depois de passar horas trancado com João Gilberto tocando um único acorde não passa de lenda, mas o resto... -, Ruy Castro faz uma calorosa defesa do disco João, ''Voz e Violão'', de 1999. ''Mais de 40 anos depois, o Brasil ainda não fez jus à beleza proposta pela música de João Gilberto'', escreve Castro.
Castro não demonstra nenhuma falsa modéstia quando fala de ''Chega de Saudade''. Diz que a história da história da bossa nova pode ser dividida entre o período anterior à publicação de Chega de Saudade e todo um movimento de recuperação do estilo musical. Escreve isso no novo epílogo do livro, já parcialmente publicado na recente edição norte-americana, mas igualmente reescrito. ''Desde 1990, a bossa nova tornou-se uma realidade de mercado'', diz ele. Na sua opinião, fatores de mercado ''quase sempre artificiais'' haviam jogado a bossa nova no esquecimento. ''Em 1986, conversei com Steve Ross, numa de suas vindas ao Brasil, e ele me disse: 'Vou surpreender o público brasileiro: vou cantar 'Se Todos Fossem Iguais a Você'; tive de dizer que ele se decepcionaria'', conta Castro. Para Ross, a bossa nova foi a melhor música do mundo nos anos 60.
Mas haveria alguma relação entre bossa nova, Garrincha e Nelson Rodrigues, também biografados por Castro e, especialmente o último, ''reabilitados''? (Quem imaginaria que no ano 2001 estaria sendo relançada, também pela Companhia das Letras, em coleção organizada por Castro, a novela ''Escravas do Amor'', de Suzana Flag, pseudônimo de Rodrigues?) ''Todas essas são histórias com um forte conteúdo humano, que tratam de artistas, Garrincha inclusive, que tiveram vidas excepcionais, e cuja criatividade esteve voltada para a beleza; além disso, há mais um ponto em comum: elas se passam, principalmente, no Rio e nos anos 50 e 60.'' Assim podem ser resumidas as bossas, novas e velhas, de Ruy Castro.


