Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Emilinha Borba, uma das cantoras mais populares da música brasileira, mesmo fora da mídia, continua sendo a preferida para milhares de fãs País afora. O selo Revivendo, de Curitiba, acaba de lançar de uma só vez dois álbuns duplos da estrela – ‘‘Sua Majestade, a Rainha do Rádio’’ e ‘‘A minha, a sua, a nossa Favorita’’.
Os discos trazem gravações de suas participações nos programas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, nos áureos tempos da emissora. Nessa época, que ocupou o final dos anos 40 e passou por toda a década de 50, o dial dos aparelhos de rádio chegava a ‘‘enferrujar’’, porque mantinha-se imóvel meses a fio, na explicação exagerada da cantora, em conversa mantida com a Folha2.
‘‘Era muito amor que as pessoas tinham pela Nacional’’, lembra a artista. Realmente, o fenômeno de audiência dificilmente se repetirá, bem como a paixão dos fãs pela ‘‘Favorita da Marinha’’, como também era conhecida. Os discos da Revivendo, porém, não são a versão em som digital dos velhos sucessos da cantora registrados em 78 rotações.
Os dois álbuns trazem 84 faixas – 42 em cada – das apresentações ao vivo de Emilinha nos programas de Cesar de Alencar, Manoel Barcelos e Paulo Gracindo. Através deles a cantora desfiava os mais variados gêneros musicais, que naquele momento poderia passar despercebido, mas agora ganha importância e grandeza, neste trabalho que sintetiza em sons aquilo que foi o cotidiano da artista no auge da fama.
Emilinha Borba canta sambas, sambas-canções, samba-enredo, marchas, boleros, fox-trote, rumbas, choros, baiões e até tango em espanhol. O público espalhado pelo País ouvia um repertório vastíssimo da intérprete de ‘‘Dez Anos’’, música ainda hoje solicitada onde quer que a artista se apresente. Os CDs são um importante documento histórico por conter em sua maioria números que ela cantou somente nessas apresentações, sem jamais tê-los levado ao disco.
São muitas as primeiras audições, e várias delas permaneceram praticamente inéditas porque não chegaram ao acetato nem na voz de Emilinha ou de qualquer outro cantor. Um desses casos é ‘‘Fantasia Brasileira’’, que nos registros da Rádio Nacional ficou sem identificação da autoria. Porém, segundo a artista, a música é de Geraldo Pereira, até então desconhecida até mesmo pelos seus historiadores.
Para a confecção dos discos houve uma garimpagem de recolhimento dos velhos discos de acetato da Rádio Nacional e fitas gravadas pelos fãs que captavam o som dos aparelhos de rádio. Os discos de acetato mostram a sofisticação da emissora nos seus anos de ouro – a emissora reproduzia em cera os programas que ali eram apresentados, para que seus artistas pudessem se aprimorar, ouvindo aquilo que tinha ido ao ar. Já as fitas são um caso de amor à parte.
No álbum ‘‘Sua Majestade, a Rainha do Rádio’’ há um flash do programa ‘‘Cesar de Alencar’’. O animador chama a cantora ao palco, usando a famosa frase que nesse momento paralisava o País: ‘‘Com vocês: a minha, a sua, a nossa favorita... Emilinha Borba!’’. Esse trecho não consta do segundo álbum.
Entre as músicas de ‘‘Sua Majestade’’ estão ‘‘Canção do Marinheiro’’ (‘‘Cisne Branco’’), de Antonio do Espírito Santo e Benedito X. de Macedo, que em outros tempos era hino obrigatório para se cantar nas escolas; ‘‘O Dia em que Me Queiras’’, de Le Pera e Gardel, na versão de Haroldo Barbosa; o choro de Radamés Gnattali, ‘‘Remexendo’’; o samba ‘‘Adeus América’’, de Haroldo Barbosa e Geraldo Jacques, com Os Cariocas; ‘‘Se Queres Saber’’, de Peterpan; ‘‘Exaltação à Bahia’’, de Vicente Paiva e Chianca de Garcia, com Francisco Alves, extraído do programa ‘‘Cancioneiro’’, levado ao ar a 28 de abril de 1947.
Em ‘‘A minha, a sua, a nossa Favorita’’ o primeiro CD abre com a faixa ‘‘Dez Anos’’, bolero de Raphael Hernandez, versão de Lourival Faissal, um dos grandes êxitos da cantora, regravado há 20 anos por Gal Costa. Há clássicos como ‘‘Pelo Telefone’’, de Donga e Mauro de Almeida, ‘‘Nada Além’’, de Custódio Mesquita e Mário Lago; a primeira audição de ‘‘Paraíba’’, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga; ‘‘Copacabana’’, de Alberto Ribeiro e João de Barro, com participação de Os Cariocas e ‘‘Exaltação à Bahia’’, de Vicente Paiva e Chianca de Garcia.
Uma curiosidade é ‘‘Cavaleiros do Céu’’, de Stan Jones com versão de S. Rodrigues, ‘‘em ritmo de samba’’. Os versos amplamente conhecidos a partir do sucesso de Carlos Gonzaga, no início dos anos 60, e na regravação de Milton Nascimento, mais recentemente, não são os mesmos do registro de Emilinha Borba.O selo curitibano Revivendo está lançando CDs duplos com gravações feitas por Emilinha Borba nos programas da Rádio Nacional
Agência EstadoEmilinha Borba mostra todo o ecletismo musical ao cantar sambas, marchas, boleros, rumbas, choros e até tangoReproduçãoReproduçãoDISCO/LANÇAMENTO

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