Se uma pessoa tivesse a possibilidade de olhar uma cidade do alto e enxergar os pensamentos de cada um de seus habitantes, ficaria atordoado com a quantidade de conexões. As ligações poderiam ser consideradas infinitas. A intimidade de cada um, ou mesmo a própria vida, poderia ser apresentada como uma maternidade literária.
Em seu novo romance, ‘‘O Mesmo Mar’’, o escritor israelense Amós Oz realiza algo semelhante. Com uma narrativa fragmentada, apresenta a intimidade de uma série de personagens que vivem em conexões diretas e indiretas. A confissão de cada um leva à imagem de estrelas-do-mar espalhadas pelos oceanos mais distantes, mas todas imersas na mesma água salgada.
Lançado pela Editora Companhia das Letras, ‘‘O Mesmo Mar’’ é completamente diferente dos romances anteriores de Amós Oz, como ‘‘Caixa Preta’’ (1993), ‘‘Não Diga Noite’’ (1997) e ‘‘Pantera no Porão’’ (1999). O escritor troca a temática política pelo amor e algumas doses de erotismo. Mesmo de maneira não direta, ele sempre colocou em seus histórias a turbulência política de seu país como um retrato da época em que vive. Agora, deixa esse enfoque de lado para realizar uma viagem introspectiva a um universo mais íntimo – os pequenos detalhes que a mente apresenta no cotidiano imediato e nos procedimentos emocionais.
A estrutura e a linguagem da obra também seguem novos caminhos. É constituída de textos curtos que trafegam entre a poesia e a prosa, entre o confessional e a divagação, entre a realidade e o onírico, entre a imaginação e o desejo, entre a proximidade e a distância, entre o presente e o passado. São várias vozes paralelas e, em alguns casos, simultâneas. A história contada não é a questão determinante enquanto romance, mas sim a intimidade das possibilidades de ligações entre as pessoas. -
Em alguns momentos da narrativa, o próprio Amós Oz entra na história para refletir sobre o que realmente está acontecendo. Tanto consigo mesmo, no ato da escritura, quanto com seus personagens. Essa invasão da ficção pela realidade é apresentada como uma avenida de mão dupla, pois os personagens também têm a possibilidade de discutir os dramas do autor em seus medos, traumas e ansiedades.
Amós Oz é hoje o mais cultuado escritor israelense. Além de seu trabalho literário desenvolve intenso engajamento política em prol da paz entres judeus e palestinos. Nascido em Jerusalém em 1939, aos 12 anos de idade presenciou o suicídio da mãe por questões obscuras. Após o episódio abandonou o sobrenome Kozner para adotar Oz, que significa ‘‘coragem’’ em hebraico. Formado em filosofia e literatura hebraica pela Universidade de Jerusalém, já publicou 20 livros, entre romances, ensaios e contos.
Para Amós Oz, ‘‘O Mesmo Mar’’ foi o livro mais difícil que escreveu. Levou quase cinco anos de trabalho. O resultado é uma literatura bem estruturada e ao mesmo tempo alucinada. A suavidade da narrativa se contrasta com o caos interior que os personagens procuram vencer. A princípio o leitor pode se confundir com a quantidade – paralela e simultânea – de elementos, mas o próprio texto se encarrega de sugerir a direção.
A figura central (se assim pode ser dito, pois não há uma figura propriamente central) é Albert, um contador de meia idade que vive dedicado ao trabalho após a morte da esposa, consumida pelo câncer. O filho, o jovem Rico, perturbado com falecimento da mãe, parte numa viagem ao Tibet em busca de ajuda espiritual. A namorada de Rico, a bela Dita, passa morar com o pai na sua ausência. Então, Albert começa a desejar, mesmo sem querer, a jovem Dita. Ela, percebendo a situação, entra no jogo.
Mas as coisas são mais complicadas. Albert possui uma relação com uma viúva, que percebe a situação. Dita, mantém uma relação com um outro jovem. Rico, em sua estadia no Tibet, também estabelece relação com outra pessoa, a prostituta Maria. Assim, os personagens vão prolongando as relações como uma corrente, uma teia. As cadeias das relações vão se prolongando, nem sempre vinculadas ao amor, com uma profusão que pode envolver qualquer um, do vizinho a um antepassado, ou qualquer coisa, do mar a uma árvore.
‘‘O Mesmo Mar’’ pode ser descrito como um romance de ouvidos abertos para vozes próximas e vozes distantes. O determinante é que o som delas, percorrendo tempo e espaço, se cruzam em algum instante. Esse cruzamento seria uma das formas mais iluminadas de compreender a vida em seu constante processo de transformação. E a poesia, assim como o vento, os instrumentos adequados para isso – onde ambos trafegam sem obstáculos, por todas as aberturas possíveis.
•O Mesmo Mar - De Amós Oz, Editora Companhia das Letras, tradução de Milton Lando, 296 páginas, R$ 28,00.

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