A noite é da marrom
Arquivo FolhaAlcione deve cantar músicas de Clara Nunes no show de hoje e prepara um disco para homenagear a guerreira
A noite é da marrom
A cantora Alcione se apresenta hoje no Cabaré do Filo, em Londrina, com o show Celebração
Antônio Mariano Júnior
Desce uma grande dama da canção popular, sobe outra no palco. Depois da fantástica apresentação de Elza Soares, chegou a hora do público do Cabaré do Filo ver em ação outra cantora de marcante personalidade artística. É Alcione que vem disposta a soltar seu vozeirão - impregnado de maneirismos jazzísticos - no show Celebração, baseado no disco homônimo lançado no ano passado. O repertório terá Estranha Loucura (que, repaginada com a participação de Alexandre Pires, do Só Pra Contrariar, estourou nas rádios da vida), Gostoso Veneno, Sufoco, Não Deixe o Samba Morrer (essa não poderia faltar, obviamente), entre outras.
Duas surpresas. E das boas. A primeira é que Alcione pode botar a boca no trumpete para tocar As Rosas Não Falam (Cartola). A outra é a inclusão de Flor da Pele, um dos grandes sucessos de Clara Nunes. Aliás, o próximo disco da cantora maranhaense, o 28º de sua carreira, a ser lançado em agosto pela Globo/Polydor, será composto apenas com músicas consagradas na voz de Clara Nunes. Ao todo, 14 faixas. Vai se chamar Claridade.
Entre as músicas selecionadas estão Juízo Final, Sem Companhia, Canto das Três Raças e Conto de Areia. Devo essa homenagem a Clara que era minha amiga e também uma grande guerreira - disse Alcione em entrevista à Folha2, por telefone. Além disso, a Clara tinha muito sentimento brasileiro na voz- complementa.
É aguardar para ouvir. E não será nenhuma surpresa se mais uma vez Alcione arrebentar. Sim, porque por mais popularesco que seu repertório tenha passado vez ou outra, ninguém pode negar que ela é, antes de mais nada, uma estilista, uma diva popular. Fez escola, assegurou um metro quadrado todo seu na MPB mesmo que parte da ala ranheta da imprensa ainda se ponha cega e surda.
Alcione veio da melhor escola que um cantor pode ter: a noite. Foi em intermináveis noitadas de cantoria, entre fumaças de cigarros, garçons perambulando entre as mesas, algumas pessoas nem aí com quem está no palco, que essa maranhense aprimorou seu canto. As gravadoras a descobriram, no início da década de 70, e a lançaram como sambista.
Sim, o samba é sua praia mas uma crooner que se preza passeia por vários estilos, como as baladas românticas que, com o correr do tempo e com autonomia conquistada, ela passou a incluir com mais vigor em seus discos. Eu sentia, no começo, que muita gente achava que mulher negra não podia cantar músicas românticas- diz ela.
Porém, ainda há quem insista - ou sinta saudades - de ver apenas sua verve de sambista. Ela não se faz de rogada não. Só que aponta para um fato que, ao seu ver, está diretamente relacionado ao machismo: faltam mais cantoras de samba. As gravadoras acham que somente grupos de pagode com rapazes é que chamam a atenção- diz citando o grupo Batuque de Saias, como um dos talentos femininos que precisam ser vistos com mais atenção.
A verdade é a seguinte: aos 28 anos de carreira, 20 discos de ouro e 5 de platina, Alcione pode gravar o que bem lhe der na telha. Pode, inclusive, abusar de suas levadas jazzísticas vocais, que vêm se intensificando cada vez mais. Eu quero sempre ser o que sou, uma cantora popular e, se possível, uma estilista- diz. Então tá!!
Celebração, show com a cantora Alcione. Hoje, a partir das 23 horas, no Cabaré do Filo (Rua Taubaté, 170, antiga Londrimalhas). Ingressos individuais a R$ 10,00 (estudantes, idosos, funcionários da UEL e usuários da Tim Telepar que apresentarem uma fatura telefônica terão desconto de 50%). Mesas a R$ 100,00. Ponto de vendas: Casa de Cultura (Praça 1º de maio, 118). Mais informações pelo telefone (043) 322-1030. O Cabaré abre suas portas às 21 horas.





