A noite dos pacientes
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de março de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
Hollywood perdeu ótima chance, pelo menos uma vez em sua existência quase septuagenária, de sair da camisa de força de anos e anos de mesmice burocrática. Numa temporada esquisita, a Academia desandou a distribuir nominações no mínimo implausíveis para os padrões industriais vigentes, privilegiando a safra de barrados no baile dos grandes orçamentos e estúdios - exceção para Jerry Maguire. Os mesmos ventos independentes, quem sabe, poderiam ter soprado a favor de quem produziria a cerimônia de entrega do Oscar. Mas não foi o que se viu na arrastada e sonolenta madrugada de ontem, apesar de um início promissor por conta da volta do comediante Billy Cristal como mestre do espetáculo. Pelo menos aí um acerto: o clip de abertura, uma montagem com a interferência do ator em cenas dos filmes concorrentes, foi o ponto alto da festa, momento de inspiração e originalidade. Pena que tenha gerado um anti-clímax.
E logo de saída O Paciente Inglês aposta mais ou menos óbvia principalmente por seu perfil de produção submissamente independente, começou a colecionar as estatuetas que, ao fim de três horas e meia, somariam nove. Um quase recorde, justificando a obrigação dos acadêmicos (sic) em premiar com sobras quem mais se aproximou da cartilha de produções com a chancela das majors . É muita ingenuidade acreditar que esta 69ª entrega do Oscar tenha sido um mar de rosas para a comunidade que dá as cartas e joga pesado no mercado cinematográfico norte-americano - e mundial, por extensão lógica. E é muito otimismo, achar que esta circunstância fortuita que colocou num mesmo palco filmes artisticamente dotados como Fargo, Segredos e Mentiras, Shine e O Paciente Inglês seja alguma coisa maravilhosamente orquestrada, além somente disso mesmo, uma circunstância fortuita. É pena, porque ano que vem os independentes de qualidade insuspeitada já não vão participar do banquete, exatamente porque Hollywood não vai tolerar que uma Frances McDormand qualquer suba o palco e dê lições sobre a importância dos diretores trabalharem com talentos reais e não com nomes de fachada.
Uma ou outra passagem interessante durante a cerimônia: o Oscar honorário para o coreógrafo Michael Kidd e o respectivo clip reunindo antológicos momentos de pura magia na história de alguns dos musicais mais influentes. Ou o simpático agradecimento do diretor tcheco Jan Sverak , conversando com o seu Oscar dado a Kolya, melhor filme estrangeiro.
Também de nível superior a coreografia criada para introduzir o prêmio dado à melhor montagem, com um competente grupo de sapateadores. Já a vantagem do necrológio anual é a de atualização: sempre há falecidos que causam surpresa. Oportuna a reunião de adaptações de Shakespeare, mas mal concluída com a anedota infeliz de John Wayne. Desnecessária e grosseira a intromissão da dupla hardcore Beavis & Butthead, demonstrando que personagens de animação rasgando envelopes e anunciando premiados devem oferecer ao mesmo tempo uma boa dose de charme. Como também desnecessária, porque penosa para todos, a apresentação do pianista David Helfgott, que inspirou a cinebiografia narrada em Shine - Brilhante. Finalmente, todas as canções niveladas por baixo, com arranjos e interpretações sofríveis. Melhor para Barbra Streisand, que assistiu tudo à distância e melhor também para Natalie Cole, gripada e substituída à ultima hora por Céline Dion.
Quanto às transmissões via tevê, José Wilker pelo canal pago Telecine teve desempenho furos acima do trio Renato Machado-Rubens Ewald Filho-tradutora, pelo sinal aberto da Rede Globo. Sem a preocupação de traduzir, Wilker ficou apenas nos comentários a partir do script original do espetáculo, de resto confuso e por diversas vezes equivocado. De volta à Globo como convidado, Ewald Filho continua praticando enciclopedismo quando o momento pede economia e objetividade nas observações. Por sua vez, a tradutora repete os vícios de coberturas anteriores: fala atropelando quem apresenta ou agradece. O trabalho da moça está sempre baseado na velocidade. O que se diz ao fundo é quase sempre traduzido em cima, mas algumas vezes o telespectador fica sem saber o que a tradução significa.
E nesta noite outrora de muito glamour, os ricos, elegantes e famosos estão cada vez mais somente ricos e famosos, com a desorganização nos figurinos substituindo a elegância.


