A noite do amor, do sorriso e da flor
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Thiago Alonso<br> Equipe de Folha 
A presença de um grande artista muda a rotina de uma cidade. Nas últimas semanas, São Paulo e o Brasil respiraram um ''clima João Gilberto'', cantor baiano que fez show na cidade na última quinta e sexta-feiras (14 e 15 de agosto). O mito estava de volta. Era o suficiente para sua presença ecoar em discussões em sites de relacionamento, páginas de jornais e revistas, rodas de conversa.
O show começou bem antes de João subir ao palco (ele subiria?). Confusão na venda dos ingressos, reclamações de quem não conseguiu comprar, acompanhamento massivo da imprensa, expectativa depois de cinco anos sem shows de João no Brasil, discussão sobre se ele viria ou não; se reclamaria ou não. Ele foi.
Tocou nos dois dias e tratou de encantar. É o João; dá para ter certeza. No primeiro show, atraso de mais de uma hora e meia e um bis gordo. No segundo - assistido pela reportagem da FOLHA -, mais atraso: valeu a pena para o que viria depois. Um apresentação impecável, digna de quem há 50 anos modernizou a música brasileira, colocou o País no mapa da beleza. Diante de pouco mais de 800 pessoas (seriam sortudos?), estava o homem que inventou a Bossa Nova. Não é pouco.
Ver João cantar e tocar seu violão deveria ser uma experiência pela qual todo brasileiro deveria passar. Como escreveu o biógrafo da Bossa Nova Ruy Castro, todo brasileiro tem direito a um cantinho e um violão. Ver João cantar deveria ser lei. O senhor de 77 anos tido como implicante e excêntrico nos faz lembrar o que temos de melhor - o que faremos quando o Brasil for um mundo melhor? Sobe ao palco nu empunhando apenas seu violão. Não precisa de mais nada: banda, pose, cenografia. Seis cordas e uma voz mínima bastam.
Bem-humorado, fala sobre os comentários do show do dia anterior, sobre seu atraso. Diz que depois disso, nem comeu direito naquele dia. Saíra correndo do hotel engolindo alguma coisa que nem chegava a ser um jantar. Tudo para não se atrasar para o segundo concerto. Ele diz isso sério. Depois ri. A platéia, que quer qualquer coisa do gênio - um sorriso ou uma bossa - ri junto. ''Tem gente que perde o amigo mas não a notícia'', diz João e faz uma careta. Risos e aplausos. João sorri novamente: tem certeza que agrada.
Quando vêm os primeiro acordes, silêncio e tensão. Qualquer movimento em falso do pé ou uma respiração mais forte podem atrapalhar o homem que sozinho enfrenta o que é feio e que apenas com um violão e uma vozinha sussurrada deu um novo sentido para palavra beleza. Canta e toca baixinho, mas nesse violão parece que traz a síntese da bateria de uma escola de samba.
Desfila clássicos. As músicas que todos conhecemos mas não podemos cantar para não atrapalhar o mestre. ''Wave'', ''Corcovado'', ''O pato'', (''Chega de Saudade'' ao vivo é linda), ''Estate''. Hora ou outra, João até fala. Diz que ama São Paulo cantando a música ''É o amor'', de Zezé de Camargo e Luciano. A platéia parece não acreditar. Mas aconteceu.
Nos próximos meses, cariocas e baianos poderão ver o show de João, que toca ainda no Rio de Janeiro e em Salvador. No final do ano fará alguns concertos no Japão (para quem dedicou uma composição inédita na apresentação). Depois disso, é o fim de sua turnê. Quando volta aos palcos? Quando decidir tirar o pijama e sair novamente à rua, quebrando a reclusão mítica. Tomara que aconteça com mais frequência que possamos imaginar. As pessoas merecem.
Enquanto isso não se dá, lembremos da apresentação daquele que é, sem medo de afirmar, o maior artista brasileiro vivo e o maior cantor de maior música popular do mundo. O clichê é inevitável, mas necessário: Obrigado, João.


