A NEGRA SOMBRA DA PENA
Obras completas de Lautréamont chegam às livrarias
Marcos Losnak
Especial para a Folha2

Alguns cérebros perturbados arranham a caixa craniana como gatos aprisionados em sacos de estopa. Desesperados, arriscam qualquer forma de fuga, querem mais ar, maiores espaços, correr como lobos pela estratosfera. Aprisionados, correm o risco de explodirem pelos olhos, narinas, ouvidos e boca. Atormentados, lançam-se pela floresta do bem e do mal. Correm alucinados, chocando-se contra árvores e pedras. Cansados e ensanguentados, dormem o atento sono dos animais perseguidos.
Um destes cérebros atormentados chamava-se Isidore Ducasse. Morreu solitário num quarto de hotel em Paris aos 24 anos de idade. Utilizando o pseudônimo de Conde de Lautréamont, deixou uma obra polêmica e perturbadora. Apenas dois livros, impressos com o dinheiro da mesada do pai, ‘‘Os Cantos de Maldoror’’ (Les Chants de Maldoror) e ‘‘Poesias’’ (Poésies I e II). Sua vida foi uma sombra indefinida banhada de infinitas suposições. As únicas informações concretas sobre sua existência estão em sua certidão de nascimento e de óbito, nada mais. Nenhuma fotografia, nenhuma lápide com seu nome inscrito.
A editora Iluminuras acaba de publicar ‘‘Lautréamont - Obra Completa’’ com tradução de Claudio Willer compreendendo suas duas únicas obras e cartas. Na realidade trata-se de uma reedição da tradução de Willer - publicada em 1970 pela Editora Vertente e em 1986 pela Editora Max Limond - acrescida de ‘‘Poesias’’, até então sem edição brasileira. O volume ainda traz um belo prefácio do tradutor e detalhadas notas.
Isidore Lucien Ducasse nasceu no Uruguai em 4 de abril de 1846. Seu pai, François Ducasse, era funcionário do consulado francês em Montevidéu. Sua mãe, Célestine Jacquett Devazac, morreu dois anos após seu nascimento. Com quinze anos de idade foi mandado à França para completar seus estudos. Em 1868, aos 22 anos, muda-se para Paris com o objetivo de se tornar escritor. Aluga em quarto e começa a trabalhar em sua obra radical, ‘‘Cantos de Maldoror’’.
Diz a lenda que Isidore Ducasse permanecia a maior parte do tempo trancado em seu quarto, martelando um piano e compondo em voz alta seus escritos. Em 1870 entregou os originais de ‘‘Cantos de Maldoror’’ ao editor Lacroix que, assustado com o conteúdo da obra, mandou o livro ser impresso na Bélgica temendo algum processo como o de Charles Baudelaire com ‘‘As Flores do Mal’’ e de Gustave Flaubert com ‘‘Madame Bovary’’. Temerosos pelo polêmico conteúdo do livro, os editores não o distribuíram. Até mesmo o melhor amigo de colégio de Isidore, exigiu que seu nome seria retirado da dedicatória do livro.
Guerra ‘‘Cantos de Maldoror’’ é um texto convulsivo e alucinado. Carregado de violências e perversões, utiliza de todas as armas na guerra contra a humanidade e a Deus. Agressivo e ao mesmo tempo poético, realiza o culto do mal como força cuja beleza foi humilhada pelo bem. Maldoror, personagem narrador dos cantos, elege o vício como virtude onde tudo é permitido: ‘‘Eu me viro como posso no século em que fui jogado. Não era esse o lugar que eu queria, mas não posso sair dele. Tudo o que posso fazer é lançar a bile verde de meus escritos sobre essa humanidade.’’
Neste mesmo ano, 1870, Isidore Ducasse conclui e publica, com a mesada do pai, seu segundo e último livro. Sob o título de ‘‘Poesias’’, a obra não traz nenhum poema, mas uma sucessão de aforismos caóticos onde o sentido lógico é deixado de lado. Grande parte do texto é uma inversão da afirmação de outros autores, como o filósofo Pascal. Isidore seleciona frases e simplesmente inverte seu sentido criando um outro conteúdo. Descontextualização. Em suas palavras, o plágio seria necessário.
Diferentemente de ‘‘Cantos de Maldoror’’, em que realiza uma poética do mal, em ‘‘Poesias’’ Ducasse prega a poética do bem. Literalmente troca um pelo outro sem nenhum arrependimento: ‘‘Eu substituo a melancolia pela coragem, a dúvida pela certeza, a desesperança pela esperança, a maldade pelo bem, as queixas pelo dever, o ceticismo pela fé, os sofismas pela frieza da calma, e o orgulho pela modéstia.’’ Conde de Lautréamont dá lugar à Isidore Ducasse.
Alguns meses depois da publicação de ‘‘Poesias’’ o gerente do hotel percebeu o contínuo silêncio do quarto de Ducasse. Ao arrombar a porta, em novembro de 1870, encontrou-o deitado na cama, morto. O atestado de óbito não aponta a causa do falecimento, mas pesquisadores apontam três possibilidades: suicídio, overdose ou alguma doença fatal.
A obra do Conde de Lautréamont somente foi resgatada quarenta anos depois pelos surrealistas. André Breton, em seu ‘‘Manifesto Surrealista’’ aponta-o como o grande precursor do surrealismo - citando a famosa frase ‘‘a beleza no encontro fortuito de uma máquina de costura e um guarda-chuva sobre uma mesa de dissecção’’. Desde então seus escritos são cultuados como uma dos grandes exemplos de radicalidade da literatura francesa. Seu nome figura com destaque na galeria dos escritores malditos, ao lado de Baudelaire, Artaud e Jarry.
Chamado de ‘‘águia negra da poesia universal’’ por Octávio Paz, Lautréamond, ou Maldoror, ou Isidore, está revestido de pesadas sombras. Após sua morte, suas fotografias e manuscritos desapareceram. Seus raros conhecidos e familiares riscaram da lembrança sua existência. Quase nada sobre sua vida pode ser comprovado. De seus livros, sobraram apenas exemplares únicos garimpados na Biblioteca Nacional de Paris.
Tudo indica que era um jovem atormentado. Um autêntico punk literário. Seus escritos, principalmente ‘‘O Cantos de Maldoror’’ revelam um lado do homem não muito visitado. Uma granada de mão na mente do leitor.
‘‘Lautréamont - Obra Completa’’ de Conde de Lautréamont, Editora Iluminuras, tradução, prefácio e notas de Claudio Willer, 318 páginas, R$ 29,00/Livraria Rosa do Povo.

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