Antes de tudo, uma forma de esperança por escrito. Uma esperança que o negro jamais deixou escapar por entre os dedos. Foi pensando principalmente nisso que o sociólogo, escritor e poeta Luiz de Melo Santos escreveu ‘‘O Auto da Criação do Mundo’’, que será lançado neste sábado, às 20 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde. A noite de autógrafos terá também um espetáculo de danças afro-brasileiras, grupo de capoeiras, maculelê e outras manifestações. O livro será vendido a R$ 5,00.
O livro está sendo lançado pela Editora Corrente, do próprio Luiz de Melo Santos. A tiragem inicial é de mil exemplares que estarão disponíveis nas livrarias locais, nas lojas da locadora Delta Vídeo e também em barracas do Centro de Ciências Humanas (CCH), da Universidade Estadual de Londrina. A obra deverá em breve ser transformada em uma montagem teatral feita com membros da comunidade. A direção é de Sander Paverô e Lincoten, com supervisão da yalorixá Ya mukumbe, que dirige o Pro-Ranti - projeto de resgate de tradições e identidade, alocado junto ao IPAC de Londrina.
‘‘O Auto da Criação do Mundo’’ é um longo poema que trata das mais variadas temáticas do negro - como a criação do mundo sob a ótica negra, passando pelos aspectos religiosos, resistência dos quilombos, situação da raça de uma maneira geral, entre outros tópicos. Se há a exposição de cruezas (como a escravidão e guerra entre brancos e negros, por exemplo), há também alto teor de lirismo, poesia e candura.
Ao todo, 60 páginas e divididas em 20 atos. Uma das partes mais bonitas da obra é a invocação do homem negro à Olorum, o criador. (‘‘O que te fiz Olorum/ responde logo: o que eu fiz/ que roubam a felicidade/ de quem vivia feliz/ debaixo do teu olhar, diante do teu nariz?). E eis que Olurum responde (Negro farei de ti/o meu filho predileto: doenças que matam branco/não atacarão o preto).
Outra parte interessante do livro é ‘‘Cabelo Duro de Negro’’, uma espécie de resposta que Luiz de Melo dá à música ‘‘Veja os Cabelos Dela’’, do palhaço-cantor Tiririca (ver texto nessa página). E como não deveria deixar de ser, o autor termina com versos de esperança, incluído em ‘‘Canto da Apoteose’’. ‘‘Ser negro é ficar no mundo/pensando só na vitória’’- diz um determinado trecho do poema.
Negro Brasil Luiz de Melo Santos é sociólogo formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e, atualmente, docente do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina. Como escritor, já públicou mais de 20 obras que vão do cordel à poesia livre, entre outras publicações. Todas seguem a temática do negro.
E ‘‘O Auto da Criação do Mundo’’ não poderia fugir à regra. Segundo ele, trata-se de mais uma de suas contribuições à valorização do negro um tanto quanto injusta no seu entender. ‘‘Houve apenas um progresso relativo, tênue, superficial. A sociedade brasileira ainda não vê o negro com assento nobre’’- diz ele.
Há, claro, um pouco de incoerência nesse desnível. Afinal de contas, de acordo com o IBGE, o negro (incluído os pardos, mulatos e mestiços) no Brasil representa cerca de 44 por cento da população brasileira. Ou, mais de 60 milhões de pessoas o que nos coloca na condição de 2º país com a maior quantidade de negros. ‘‘Existem projeções de que em menos de 50 anos, seremos um país com predominância negra’’- analisa Luiz de Melo. ‘‘A unidade só será feita através de um conhecimento da importância do passado negro que não pode ser resumido ao folclore. O negro está presente em tudo, da economia, à religião, do esporte à culinária’’- completa ele.

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