No início dos anos 60, ao ser questionado sobre diretores de cinema que prometiam, Orson Welles, que habitualmente não perdia seu ar blasé, disparou um só nome - Stanley Kubrick. Após a sua morte em março de 1999, aos 70 anos, o autor de filmes como ''Doutor Fantástico'' e ''Glória Feita de Sangue'', se não foi o maior cineasta americano, inclui-se seguramente em um grupo selecto formado por Welles, David Wark Griffith, George Cukor, Nicholas Ray, Francis Ford Coppola e Martin Scorsese.
A Warner aproveitou o lançamento de ''Inteligência Artificial'' no Brasil para trazer ao público um pacote de 8 DVDs com a obra do diretor de ''Spartacus'', incluindo desde os títulos inéditos no mercado brasileiro como ''Barry Lindon'' e ''Lolita'', até os clássicos agora restaurados e remasterizados: ''Laranja Mecânica'', ''2001 - Uma Odisséia no Espaço'', ''O Iluminado'', ''Nascido para Matar'' e o epitáfio de Stanley, ''De Olhos Bem Fechados''. Para completar o pacote, uma extraordinária viagem ao universo particular do diretor - o documentário ''Stanley Kubrick - Imagens de uma Vida'', de Jan Harlan, cunhado do cineasta (leia texto nesta página).
Kubrick não era um diretor de grandes bilheterias, mas seus filmes atingiam razoável êxito comercial. Fez poucos filmes, 13 longas e 2 curtas ao todo, em quase 50 anos de profissão. Todavia, logo em seu terceiro filme, a produção noir ''O Grande Golpe'' - ainda inédito em vídeo e DVD no Brasil - destacou-se como um cineasta de visual requintado, de estilo econômico, que privilegiava os diálogos e a montagem como matéria fundamental ao público.
Ele acreditava que a essência do cinema, aquilo que distingue essa linguagem das demais, é o processo de montagem, em que o ritmo e sequência da história são elaborados. Dos filmes que integram o pacote, ''2001'' é o que mais traz essa idéia. Kubrick constrói um visual acéptico, de morbidez insípida, um cenário sobre o que estaria reservado ao homem. Os efeitos renderam a Douglas Trumbull o Oscar de melhor efeitos especiais, o único que o filme ganhou. Mas a história permanece sob análise até hoje, configurando um processo perpétuo de releituras e descobertas. Kubrick, que acreditou nessa época estar realizando seu melhor trabalho, ficou ansioso para saber a reação do público. Só quando sua esposa, a atriz e pintora Christiane Kubrick lhe disse que o público havia gostado, é que o cineasta voltou à sua rotina.
Rotina aliás pouco acessível. Quase não há registros de entrevistas com Kubrick, apenas algumas declarações espalhadas em diversos contextos. Mas os seus filmes traduzem à perfeição o que era o cineasta. Suas obsessões e estudos o direcionam para um amplo repertório relacionado à liberdade do homem. O livre arbítrio contraposto à violência em ''Laranja Mecânica''; os limites nunca aparentes entre o real e o imaginário em ''O Iluminado''; a ansiedade humana em construir algo maior do que seu próprio criador em ''2001''; a inconsciência dos próprios atos e do que é o amor em ''Barry Lindon''; a intolerância travestida de virtude em ''Nascido para Matar''; os desejos que, mesmo naturais, tendem a ser reprimidos em ''Lolita''; e finalmente o medo da morte, do poder do ilusório sobre o real em ''De Olhos Bem Fechados''.
A incapacidade de conciliar esse dois pólos extremos que norteiam a humanidade desde a sua criação, o instinto e a razão, são a mola propulsora da obra de Kubrick. Ele quer a liberdade sem a culpa, os experimentos sem os desastres, o prazer sem a punição, o sonho sem o acordar. Uma tentativa de criar um universo à parte que serviria como um refúgio ao nosso mundo ''civilizado''.
Kubrick era então um puritano, poderiam dizer alguns. Talvez esse termo não seja ideal, pois a pureza que resiste no diretor é a mesma de uma criança que olha para o mundo e pensa: não há limites para o que eu posso fazer. Essa era a sua obsessão principal, como se a sua incessante vontade de retratar a natureza pudesse consertá-la. É sim um artista acima da média dos que produzem filmes, e acabou atingindo uma sobriedade de imagens unicamente própria aos grandes pintores. Sua solidão e seu prazer atávico por histórias que lhe mostrassem o que é o mundo permitiram a Stanley uma narrativa semiprofética, uma projeção de nosso futuro próximo junto ao o que geralmente nos corrói - uma dose de liberdade que teima em nos aprisionar...
Coleção Stanley Kubrick - 8 DVDs - ''Lolita'', ''Barry Lindon'', ''2001 - Uma Odisséia no Espaço'', ''O Iluminado'', ''Nascido para Matar'', ''Laranja Mecânica'', ''Stanley Kubrick - Imagens de uma Vida'' e ''De Olhos Bem Fechados''. Preço do pacote completo: R$ 239, em média. Preço para cada título: R$ 39,00, em média.

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