A natureza como salvação
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terça-feira, 01 de dezembro de 1998
Celso Mattos 
Quando O Encantador de Cavalos estreou nos cinemas, alguns críticos acusaram Robert Redford de narcisista, classificando seu filme de piegas e caça-níqueis. Pura bobagem. A exemplo de Gente como a Gente e Nada É para Sempre, este último trabalho de Redford retrata com muita sensibilidade os conflitos familiares, colocando mais uma vez a natureza como salvadora do homem. Apesar dos estereótipos previsíveis do melodrama, o diretor-ator fez um filme emotivo e delicado que lembra aqueles dramas produzidos na fase áurea de Hollywood, a começar pelos dirigidos por John Houston.
Apaixonado pelo homem simples do campo, Redford constrói a figura de um herói tipicamente americano que pode ser tanto um pescador como ou caubói. O importante é que sua alma seja autenticamente selvagem e pura como as paisagens do Estado de Montana, onde se passa a maior parte do filme. Nascido e criado no oeste americano, Robert Redford sempre valorizou a comunhão do homem com a natureza. No entanto, apesar de falar de cavalos, caubóis e heróis americanos, O Encantador de Cavalos lança um olhar feminino sobre esse universo masculino, criando uma atmosfera que vai do rústico ao frágil.
Tudo começa com um acidente equestre que envolve duas adolescentes. A construção da cena numa estrada coberta de neve é primorosa e ao mesmo tempo apavorante. Uma das meninas, gravemente ferida, precisa amputar a perna e, o cavalo, além de muito machucado, fica traumatizado. O acidente é o pontapé inicial para uma história sobre o renascimento de duas pessoas que se fecharam para a vida. Na tentativa de salvar a filha da prostração causada pelo acidente, a mãe Annie (Kristin Scott Thomas), indicada ao Oscar de Melhor Atriz por sua atuação em O Paciente Inglês, resolve sair em busca de ajuda tanto para a filha quanto para o cavalo.
Para isso, ela sai de Nova York e mergulha numa América selvagem e profunda que a levará ao interior de Montana, onde mora Tom Booker (Robert Redford), conhecido como um terapeuta de cavalos. A viagem é uma espécie de travessia que deixa para trás um mundo artificial para ir ao encontro de um universo autêntico e puro. Robert Redford fez um filme de dramaturgia tradicional e previsível, mas isso não compromete o resultado final. A melhor forma de curtir O Encantador de Cavalos é se deixar envolver totalmente pela emoção genuína do filme. Não é uma fita fácil. Os personagens são complexos, o ritmo é lento e introspectivo, mas, no geral, é uma obra cativante.
O Encantador de Cavalos tem a ternura de As Pontes de Madison, de Clint Eastwood; os conflitos de Gente como a Gente e a beleza estética de Nada É para Sempre. Lançamento da Abril Vídeo. Duração: 168 minutos.


