Quando ‘‘O Encantador de Cavalos’’ estreou nos cinemas, alguns críticos acusaram Robert Redford de narcisista, classificando seu filme de piegas e caça-níqueis. Pura bobagem. A exemplo de ‘‘Gente como a Gente’’ e ‘‘Nada É para Sempre’’, este último trabalho de Redford retrata com muita sensibilidade os conflitos familiares, colocando mais uma vez a natureza como salvadora do homem. Apesar dos estereótipos previsíveis do melodrama, o diretor-ator fez um filme emotivo e delicado que lembra aqueles dramas produzidos na fase áurea de Hollywood, a começar pelos dirigidos por John Houston.
Apaixonado pelo homem simples do campo, Redford constrói a figura de um herói tipicamente americano que pode ser tanto um pescador como ou caubói. O importante é que sua alma seja autenticamente selvagem e pura como as paisagens do Estado de Montana, onde se passa a maior parte do filme. Nascido e criado no oeste americano, Robert Redford sempre valorizou a comunhão do homem com a natureza. No entanto, apesar de falar de cavalos, caubóis e heróis americanos, ‘‘O Encantador de Cavalos’’ lança um olhar feminino sobre esse universo masculino, criando uma atmosfera que vai do rústico ao frágil.
Tudo começa com um acidente equestre que envolve duas adolescentes. A construção da cena numa estrada coberta de neve é primorosa e ao mesmo tempo apavorante. Uma das meninas, gravemente ferida, precisa amputar a perna e, o cavalo, além de muito machucado, fica traumatizado. O acidente é o pontapé inicial para uma história sobre o renascimento de duas pessoas que se fecharam para a vida. Na tentativa de salvar a filha da prostração causada pelo acidente, a mãe Annie (Kristin Scott Thomas), indicada ao Oscar de Melhor Atriz por sua atuação em ‘‘O Paciente Inglês’’, resolve sair em busca de ajuda tanto para a filha quanto para o cavalo.
Para isso, ela sai de Nova York e mergulha numa América selvagem e profunda que a levará ao interior de Montana, onde mora Tom Booker (Robert Redford), conhecido como um terapeuta de cavalos. A viagem é uma espécie de travessia que deixa para trás um mundo artificial para ir ao encontro de um universo autêntico e puro. Robert Redford fez um filme de dramaturgia tradicional e previsível, mas isso não compromete o resultado final. A melhor forma de curtir ‘‘O Encantador de Cavalos’’ é se deixar envolver totalmente pela emoção genuína do filme. Não é uma fita fácil. Os personagens são complexos, o ritmo é lento e introspectivo, mas, no geral, é uma obra cativante.
‘‘O Encantador de Cavalos’’ tem a ternura de ‘‘As Pontes de Madison’’, de Clint Eastwood; os conflitos de ‘‘Gente como a Gente’’ e a beleza estética de ‘‘Nada É para Sempre’’. Lançamento da Abril Vídeo. Duração: 168 minutos.

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