A narrativa dos ruídos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 04 de setembro de 2017
Danieli Souza<br>Especial para Folha 2 

Londrina, nos últimos anos, têm tido a felicidade de contar com uma gama pra lá de diversa de eventos culturais. Este mês, as artes visuais mostram sua força em diversas exposições espalhadas pela cidade. Dentre elas, a mostra Ruidógrafo, de Marcelo Armani, que segue em exposição no Centro Cultural Sesi/AML até domingo (10).
Armani é artista sonoro, produtor eletroacústico e músico improvisador autodidata. Fez parte de grupos de post-rock como baterista, realizando apresentações pelo Brasil, Uruguai e Argentina. Como músico solista, explorou novas tecnologias e segmentos da música eletroacústica, concreta, improvisação livre e captações de campo, realizando concertos focados na manipulação sonora em tempo real. Em 2011, Armani se projetou no campo das artes visuais, participando de residências artísticas, mostras coletivas e individuais, realizando oficinas e conferências no Brasil e exterior. "Minha entrada em mostras e exposição aconteceu pela influência de duas oficinas que fiz durante o Festival Tsonami, em Buenos Aires. Nessa oficina senti que minha cabeça fez um "click" e pude visualizar de forma espacializada as peças sonoras que vinha compondo e aproximá-las desse universo de narrativas com as artes visuais", relembra.
Já o encanto pelo mundo sonoro, ele conta, vem desde muito cedo. "Os sons e os ruídos foram as primeiras percepções de que tenho lembrança. Muito disso vem do convívio com o meu avô paterno que tocava acordeon. Eu passei parte da minha infância no meio rural e lá os sons do vento, dos raios e tempestades em campo aberto cederam lugar aos motores, escadas rolantes, trens e os passos apressados das pessoas que pareciam aceleradas pelo relógio." Seus projetos, além disso, retratam questionamentos políticos, sociais, religiosos e geográficos, vinculados às relações do homem com o tempo e o espaço. Em seus processos, o artista transita por diversos suportes e linguagens. O resultado, geralmente, se revela na composição de instalações sonoras, onde as peças produzidas trazem resíduos capturados da paisagem sonora urbana. "Meus dispositivos tem essa característica bem próxima com o campo da Arte Sonora, porém a poética de alguns projetos traçam um diálogo com outras linguagens visuais como o desenho, escultura, fotografia, tangenciando a arte conceitual, o ready made e por ai vai."
Quem espera apenas circular por um salão e parar diante de algumas obras para as contemplar, vai vivenciar uma nova experiência. Isso porque Ruidógrafo é, na verdade, uma instalação sonora desenvolvida em 2016, no programa de residência artística Sala Taller IV no Espacio de Arte Contemporáneo em Montevidéu. Composta, por alto-falantes, amplificador, botão e caneta montada sobre uma mesa, é possível produzir desenhos de ordem abstrata e aleatória a partir da reprodução, em alto-falantes, de paisagens sonoras e da composição de peças criadas pela síntese de áudio. "Penso que projetos artísticos possuem essa característica de interação mesmo sem precisar de sensores ou botões. Acredito nessa interatividade perceptiva e espacial que ocorre quando um trabalho ou obra nos projeta uma situação. Quando nos provoca uma sensação e essa nos questiona sobre nossa realidade ou também nos propõe um universo até então desconhecido ou não vivenciado. Esse é o motivo que me agrada e faz com que eu prossiga refletindo e desvendando situações.", esclarece o artista.
Ele conta ainda, que segue com alguns projetos que entraram na fase de experimentação, no final de 2017. O Ruidógrafo segue de Londrina para Pato Branco e posteriormente para São José dos Pinhais. Já, no final do mês de setembro, Armani inaugura uma mostra na Galeria Adelina, em São Paulo. Além disso, ele conta que também está em fase de lançamento de um trabalho novo, que irá sair pela gravadora Luscinia Discos. "Ainda não sei se será em 2017 ou 2018 e agora estou na fase de pós produção sonora da série Formigas destinada para a TV pública e com a direção do cineasta gaúcho Gustavo Spolidoro."
Além da instalação interativa, estão expostos desenhos de autoria de Marcelo Armani que foram elaborados por meio da estrutura exposta a fim de inspirar os visitantes a produzirem as suas próprias obras. "Arte, para mim, é essa prática que vem da vivência compartilhada e que nos converge para um estado de realidade que nos retira do transe ou da anestesia social e que nos demonstra que o tal do belo e perfeito não existem. Arte é a experiência de vivenciar essas sensações diferentemente dos conteúdos rasos e empobrecidos ofertados pelas tais celebridades."
A visitação da exposição em Londrina é gratuita, das 13h às 22h, de terça a sábado. Além disso, na quarta-feira (13), Armani retorna a Londrina para a realização de uma palestra também com entrada franca. O encontro acontece às 19h e os ingressos devem ser retirados com 1h de antecedência no Centro Cultural SESI.
Serviço:
Instalação Sonora "Ruidógrafo", de Marcelo Armani
Data: de 10/08 a 10/09
Horário: de terça a sábado, das 13h às 22h
Valor: Gratuito
Local: Centro Cultural SESI/AML
Endereço: Rua Maestro Egídio Camargo do Amaral, 130 Centro


