Arquivo FolhaRobert Jourdain: ‘‘Música complexa existe há apenas um centésimo de milésimo desse período. O que nossos cérebros aprenderam a fazer para si mesmos, em período tão curto ?’’Durante a década de 70 uma equipe de arqueólogos franceses resolveram cantar dentro das cavernas que continham registros de pinturas pré-históricas. Constataram que nas câmaras onde as pinturas apareciam a acústica era melhor do que naquelas que elas não apareciam. A suposição imediata foi de que além de pintarem, nossos ancestrais também utilizavam a música, como parte de rituais. Isso leva a crer que a música é um elemento que acompanha o homem desde as épocas mais longínquas.
Longe da obviedade desta constatação, uma pergunta pode ser feita: de que forma a música, bem como demais linguagens, tiveram parte no processo evolutivo do homem e mais especificamente na evolução do próprio cérebro humano como conhecemos hoje?
Este é o tipo de indagação que pode ocorrer após a leitura do livro ‘‘Música, Cérebro e Êxtase’’ de autoria do músico e pesquisador norte-americano Robert Jourdain. Ele mesmo lança outra questão: ‘‘O sentido da audição tem 300 milhões de anos. Música complexa existe há apenas um centésimo de milésimo desse período. O que nossos cérebros aprenderam a fazer para si mesmos, em período tão curto?’’
Jourdain procura desvendar como a música é processada dentro do cérebro, suas implicações auditivas e consequências emocionais. Escrito de maneira simples, ‘‘Música Cérebro e Êxtase’’ é destinado ao leitor comum, leigo. Aborda desde o funcionamento do ouvido humano em comparação a outros animais até a relação do ritmo com o movimento físico e a estrutura dos sons musicais. Discorre sobre a específica região do cérebro que processa os impulsos sensoriais da música - o córtex auditivo - até as consequências da música em pessoas com determinadas lesões cerebrais.
Lançado pela Editora Objetiva, ‘‘Música, Cérebro e Êxtase’’ possui interessante estrutura de capítulos. Embora os assuntos se misturem entre si, Jourdain parte do som, em seguida do som ao tom, do tom à melodia, da melodia à harmonia, da harmonia ao ritmo, do ritmo à composição, da composição ao desempenho, do desempenho à escuta, da escuta à compreensão, e da compreensão ao êxtase.
Em várias civilizações a música foi considerada como uma linguagem divina, uma maneira dos homens se comunicarem, ou comungarem, com os deuses. Nas mais seculares culturas, a música é parte integrande da simbologia das religiões. Em algumas culturas xamânicas, por exemplo, a música é um dos meios utilizados para que o xamã entre em transe e atravesse os portais do outro mundo.
A capacidade de transformações que os mantras hindus são outro exemplo. Em sua obra Jourdain não investiga estes assuntos, seu foco se concentra na ciência e desemboca na inteligência artificial dos software.

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