Depois de toda essa trajetória de superação, você se sente mais maestro ou pianista?
Sou 99% maestro. No ano passado, fizemos 177 concertos em locais fechados, para 350 mil pessoas, além de mais de um milhão de pessoas em concertos ao ar livre. Do mesmo jeito que fomos ao Carnegie Hall, fomos às favelas, em um trabalho social muito forte.
Como surgiu esse trabalho social?
Começou há três anos, com a Bachiana Jovem e Sesi, na periferia de São Paulo e várias cidades do interior. Devemos chegar a 3 mil crianças atendidas até a metade do ano. Também fazemos um trabalho na Febem. Os melhores vão para a Bachiana Jovem, que hoje tem 50 integrantes.
Sua ideia de fazer um concerto com o DJ Anderson Noise gerou polêmica. Como surgiu esse projeto, e qual o objetivo?
A ideia surgiu de uma pessoa totalmente ignorante sobre o que significa DJ. Avisei em casa que um certo DJ viria me procurar, e me perguntaram: qual dos milhares que existem? Eu achava que DJ era nome. Quando conheci o Anderson Noise, me interessei pelo seu talento. No concerto, ele vai fazer intervenções em Bach, Mozart, Villa-Lobos e mais um compositor russo.
Os mais conservadores devem estar torcendo o nariz para essa idéia...
O nariz, a boca, a orelha, tudo! Mas o cara mais conservador em música sou eu mesmo, se não, não teria gravado toda a obra de Bach para teclado. Com esse concerto nós vamos poder chegar, por intermédio do DJ, ao coração das pessoas, principalmente dos jovens. A ideia é democratizar a música, e não só deixá-la guardada no campo elitista. Depois que eu comecei minha nova vida, aos 63 anos, passei a acreditar que a música tem que chegar ao grande público.
Você chegou a abandonar a música por duas vezes. Em uma delas, foi ser empresário do boxe. Como foi essa experiência?
Eu não tinha a mínima condição de tocar nada, então fui ser empresário do Eder Jofre. Quando ele recuperou o título mundial, pensei: ''Sou um covarde. Ele conseguiu voltar e eu não.'' E recomecei a estudar.
E na segunda vez, o que você fez?
Essa é uma fase da qual me arrependo, tinha me envolvido com política. Mas graças a Deus voltei para a música.
Para você, que enfrentou e superou várias dificuldades, qual foi o maior momento de sua vida?
Um momento inesquecível foi quando voltei, como pianista, ao Carnegie Hall, em 1979. Mas o mais emocionante foi no Natal passado, quando um jovem que saiu da Febem deixou um bilhete no meu prédio, dizendo que a música venceu o crime.
E o pior?
O pior foi certamente quando o médico disse que eu nunca mais poderia tocar piano. Pensando bem, foi o pior e o melhor ao mesmo tempo. Porque naquele momento morreu o pianista, mas nasceu o ser humano.

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