A música que deprime
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de janeiro de 1998
Estelio Feldman 
Londrina
ReproduçãoAlgumas pessoas já fizeram um curioso comentário: dizem que a música-tema do programa Fantástico, da Rede Globo, provoca depressão nelas. É uma música bonita. A letra, que não é apresentada há muito tempo, é também inteligente e bem feita. Não creio, porém, que seja a letra a causa da depressão. Na verdade, penso que este poderia ser um interessante tema de estudo por parte dos especialistas, talvez até um tema diferente para uma tese sobre os efeitos da TV em relação ao público.
Esta reação pode estar ligada à própria longevidade do programa. Com efeito, o Fantástico é um dos mais antigos programas em apresentação contínua na TV brasileira. Há mais de 20 anos está sendo apresentado todos os domingos à noite pela Globo. Penso que talvez perca para o Jornal Nacional que, pelo que sei, pode provocar depressão devido às notícias e não por causa do prefixo musical. Na verdade, ouvi, um dia destes, alguém dizer que não aguentava ver a Lilian Wite Fibbe, apresentadora do Jornal Nacional. Mas isto não tem nada a ver com depressão e sim com antipatia. Lilian é assim como certas pessoas: ou a gente ama ou odeia, mas ninguém fica insensível.
O interessante é que o Fantástico é um bom programa. A Globo, aliás, tem sido muito competente ao administrar o programa que ao longo dos anos foi sendo modificado, mantendo sempre um excelente nível de apreciação, o que se traduz em audiência elevada. As concorrentes fazem o que podem (e muitas vezes até o que não devem) para enfrentar o show da vida mas raramente obtêm sucesso. Entra ano, sai ano, o Fantástico persiste, com índices de audiência que devem garantir, ainda, uma longa vida na telinha.
Todavia, este efeito depressivo da música-tema sobre o público (embora isto não tenha sido ainda quantificado), é algo que deve merecer pelo menos algum tipo de reflexão. Talvez uma idéia fosse mudar a música. Mas levando em conta o fato de que a música parece intimamente ligada ao programa, a alternativa talvez seja perigosa. De repente, parte do público perderá a identificação com o programa.
Talvez esta não seja, no momento, uma grande preocupação da Globo. Entretanto é bom lembrar que os tempos estão mudando e que coisas que não preocupavam antes podem se tornar problemas agora. Uma música tema que deprime pode ser tão politicamente incorreto quanto o abuso de cenas violentas ou a exploração de assuntos eróticos. Seria triste ver um programa que consegue se manter há tanto tempo no vídeo acabar porque o tema musical provoca baixo astral entre alguns espectadores.


