A música nossa de cada noite
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de outubro de 2000
Elisa Marilia Carneiro De Curitiba 
Vocês já ouviram algumas dessas músicas: Andança, Tarde em Itapoã, Paixão, Vida Cigana, Ovelha Negra, Maluco Beleza, Espanhola, Dona, Sobradinho, Maria Maria, Como Nossos Pais, Noite Enluarada, Cuitelinho, Família, Sina, Casinha Branca, Flor de Liz, Se, João de Giz, Bandolins?
Para a felicidade geral na nação, vamos ouví-las muito mais, talvez para sempre. Ainda vamos cantá-las para nossos filhos, netos e bisnetos que nunca mais vão esquecê-las. Sem exageros, essas músicas e seus autores tornaram-se clássicos eternos. Junte-se a elas, os Beatles e os Rolling Stones e teremos um repertório para toda a humanidade. Mas esse fenômeno tem explicação.
Contexto histórico, beleza da letra, atualidade do discurso, riqueza melódica, sentimentalismo e romance. São essas qualidades que elevaram vários compositores e músicos brasileiros à qualidade de mitos, como Djavan, Chico Buarque, Caetano Veloso, Raul Seixas, Milton Nascimento, Vinicius de Moraes, Elis Regina, Rita Lee, Oswaldo Montenegro, e por aí vai....
Mas em Curitiba, Djavan é com unanimidade o dono da noite. Não dá para passar uma noite impune, sem Djavan, brinca a cantora Ariane Francis, que canta no Holmes Pub, no Largo da Ordem.
Acompanhada pelo violonista Newman Rickert, Ariane tem um repertório variado, que réune MPB, blues, pop rock e jazz. Acho que algumas músicas mais antigas são mais lembradas pelas pessoas com mais idade, mas os jovens acabam acompanhado a letra, cantando junto, observa.
Num outro barzinho quase ao lado, o Sacy Restaurante e Bar, a cena se repete. Lá só toca MPB e o repertório é sempre o mesmo. O cantor, compositor e violonista Luciano Menezes argumenta que esses clássicos deixaram marcas profundas e que dificilmente serão esquecidas. São músicas-arte que envolvem sentimentos, amores, lembranças que emocionam. Tocar essas música não tem preço. São elas que nos mantêm no palco e com vontade de continuar tocando na noite, diz Luciano. Com essas músicas, consideradas básicas e obrigatórias num bom repertório de MPB, o músico afirma que faz cerca de dez horas ininterruptas de show.
O público dos bares, quando o assunto é música, não tem do que reclamar. O professor do Departamento de Educação da UFPR Maurício Mogilka diz que gosta de ouvir de tudo desde que não seja pagode, axé ou sertaneja. Dessas da lista, conheço todas. Mas não entendo porque ficaram para sempre. Com certeza são músicas muito boas. Já me irritei com repetições em bares, com as que considero menos interessantes, como Espanhola e Dona.
Na mesa ao lado, no Holmes Pub, o casal Clóvis Casagrande, comerciário, e Marta Board, auxiliar administrativo, contam que vão muito a bares e sempre escolhem os que tocam músicas variadas, de preferência as que participaram de festivais da canção.
Procuro pedir algumas músicas diferentes como Demônio Colorido da Sandra de Sá, ou Sobradinho, que não são tocadas com tanta frequência. Mas já pedi para tocarem Arrasta-Pé, do Festival de MPB de 80 e os músicos não sabiam, conta Clóvis.
Ele lembra que tem um amigo que sempre chora ao ouvir a música Cuitelinho. Ele é do interior e a música mexe com suas lembranças. Acho que é isso que acontece com esses clássicos: lembram situações, família, lugares, amores...
Numa mesa do Sacy, a advogada Audren Azolin, professora da PUC, diz que sempre escolhe os bares que tocam MPB. São músicas diferentes das que são feitas para o consumo rápido, não são hegemônicas e independem da mídia. Realmente são composições atemporais, algumas fazendo sucesso há mais de 30 anos. Surgiram nos festivais, em momentos históricos e estão fora da ideologia de mercado, analisa. Audren argumenta que são músicas de compositores bastante conscientes e com um envolvimento social grande. São letras para se pensar, ler e refletir.


