A música na Corte de D. João VI
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segunda-feira, 21 de abril de 2008
Phoenix Finardi<br>Reportagem Local 
É incrível como a música tem o poder de nos transportar, de nos fazer viajar, até para lugares e tempos onde nunca estivemos. É assim com os lundus e modinhas, executados com viola de arame e cravo, que nos fazem imaginar que é fim de tarde no alpendre de uma quinta no Rio de Janeiro no começo do século XIX. Ou que estamos na Catedral carioca no final de 1800, assistindo um serviço fúnebre ao som do Requiem e Te Deum.
Foi essa exatamente a intenção da prefeitura do Rio de Janeiro ao lançar a série de CDs A Música na Corte de D. João VI, uma comemoração aos 200 anos da chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil. O primeiro álbum traz dois CDs: Modinhas Cariocas e Te Deum & Requiem de Padre José Maurício Nunes Garcia.
Modinhas Cariocas mostra o trabalho do maior compositor de modinhas do Brasil Colônia, Joaquim Manoel da Camera, com uma inovação do diretor musical Marcelo Fagerlande, que acrescentou outros instrumentos ao modelo tradicional de voz e piano. As músicas ganharam corpo com o cravo, a viola de arame (também conhecida como viola caipira) e a flauta de madeira. As gravações foram feitas na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A grande diferença é a interpretação, que usa sopranos e barítonos. Eles garantem uma sonoridade antiga e fora de época.
O CD também traz dois lundus, originalmente uma dança africana, muito apreciados nos salões cariocas e que ao contrário das modinhas, que se derramavam em romantismo, tinham uma letra carregada de ironia e crítica social o refrão de Lá no Largo da Sé diz: Bravo a especulação, São progressos da nação. Já o Graças aos ceos mostra que mal engatinhava o País e a miséria já corria solta: Graça aos ceos de vadios as ruas limpas estão, Delles a caza está cheia, a caza da correção. Já foi se o tempo de mendigar, fora vadios, vão trabalhar.
Te Deum e Requiem é considerada a obra-prima do padre José Maurício, o mais importante compositor brasileiro do período. A obra foi escrita por ordem de D. João VI para os funerais de D. Maria I. No mesmo dia da morte da rainha faleceu também a mãe do compositor. O CD foi gravado pelo Coro e Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
O álbum tem direção geral e curadoria do maestro Edino Krieger e coordenação artística do maestro André Cardoso. Os livretos trazem ainda ilustrações de quadros de Jean-Baptiste Debret, o mais famoso retratista do Brasil Colônia, e as letras de todas as músicas (em latim e português). Ainda neste semestre serão lançados mais dois CDs da série: Missa de Nossa Senhora da Conceição, também do Padre José Mauricio e O Sacro e o Profano na Corte de D. João VI. O projeto é da Zucca Produções, com distrituição da Biscoito Fino.


