Dois filmes que competem em Veneza privilegiam a música, mas a produção inglesa supera a italiana sob vários aspectos
France PresseMike Leigh: diretor do filme ‘‘‘Topsy-Turvy’’ considerado, até agora, uma das melhores produções em Veneza
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Veneza para a Folha2
Passada a agitação que o divismo pós-moderno trouxe para a abertura da 56ª Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza, quando os paparazzi fizeram a festa ao redor do casal Tom Cruise-Nicole Kidman, uma relativa calma volta ao Lido. As presenças ontem de uma Cameron Díaz quase morena e de John Malkovich não causaram o mesmo frisson. E enquanto novas atrações mundanas não chegam, as luzes se voltam mesmo para diretores, roteiristas e atores de filmes em competição, o que é sempre recomendável, já que se trata de um festival de cinema, presumivelmente conduzido para sobrepor qualidade à frivolidade. Até o momento, tudo parece correr neste sentido. Nenhum nome, mais ou menos conhecido, passou por aqui sem motivo aparente, vale dizer, os filmes selecionados são responsáveis pela circulação de parte de seus elencos e circunstancialmente contêm nomes com amplo trânsito no circuito da fama. Para frustração hollywoodiana, ninguém está vindo simplesmente se dourar nas areias grossas das praias do Adriático.
A música tomou conta do segundo dia de competição. E a princípio com os italianos, que fizeram sua entrada oficial na mostra. Melancólica? Pretensiosa? Nem uma, nem outra. Desastrosa, sentenciando talvez com um toque excessivo de rigor. Mas é quase isso, o mergulho que o veterano Tonino De Bernardi fez no universo amoroso em ‘‘Apassionate’’ (Apaixonadas). A partir de uma boa idéia, um filme mal resolvido, mal costurado. Um filme sobre amor, paixão e música, ambientado em Nápoles.
É na observação ‘‘della gellosia’’ que o trabalho se perde. Uma idéia curiosa - recuperar através da música os lugares comuns de sangrentas tragédias amorosas protagonizadas por mulheres como resultantes do ciúme doentio. Uma espécie de histérico tratado da psicopatologia da posse e seus derivados. Através de 21 das mais representativas canções napolitanas, De Bernardi constrói um vade-mécum do sofrimento, uma via-crúcis passional pela ruas de Nápoles onde desfilam as ‘‘apassionate’’ do título, mulheres desesperadas que o amor leva a medidas extremas. O que o filme despreza, e por isso se invalida, é com o não comprometimento social, como se a música, e só a música pudesse justificar os dramas.
Também utilizando a música, mas em registro completamente oposto, o novo filme de Mike Leigh (‘‘Segredos e Mentiras’’) é um banquete para os sentidos, uma incursão única e preciosa às letras e melodias de uma dupla de compositores ingleses da segunda metade do século 19. Mas não apenas isto. ‘‘Topsy-Turvy’’ - segundo Leigh explicou durante a entrevista coletiva, expressão que significa tanto um mundo de faz-de-conta e de poções mágicas como um mundo desordenado, caótico, de cabeça para baixo - é a dramatização de um período da experiência criativa do libretista Gilbert (William Schwenck) e do compositor Sullivan (Arthur Seymour), durante a década de 1880 na Londres vitoriana. Esta inspirada combinação, que adquiriu sólida e merecida reputação artística compondo operetas, corresponderia aos contemporâneos Rodgers & Hammerstein. Juntos compuseram grandes sucessos, que a seu tempo tiveram a mesma ampla receptividade de uma ‘‘Noviça Rebelde’’, por exemplo.
‘‘Topsy-Turvy’’ oferece também uma outra escritura, a das relações humanas num viés de bastidores. A real paixão de Gilbert & Sullivan era a música clássica, mas por razões financeiras foram levados a escrever e compor numa escala mais popular. O filme flagra um momento delicado na carreira de ambos: depois das discretas críticas ao último trabalho, ‘‘Princess Ida’’, Sullivan recusa-se a colocar melodia nos libretos fantasiosos, ‘‘topsy-turvy’’ de Gilbert. E este não admite mudanças e insiste em fabulações infantilóides. Estremecidos e afastados, cada um parece seguir o seu caminho, até que uma nova idéia toma forma na cabeça de Gilbert. O parceiro desta vez aceita, a nova opereta fica pronta e os exaustivos ensaios começam no habitual Savoy Theatre de Londres.
Embora desta vez operando em chave que privilegia também o espetáculo através da geografia física e humana dos bastidores do teatro, e aqui não mais trabalhando com um pequeno orçamento, Mike Leigh não abandona o seu território por excelência - aquele cinema tão contemporâneo associado ao realismo e ao background social. As semanas que antecedem a estréia de ‘‘The Mikado’’ são o tempo necessário para o roteiro de Leigh trabalhar a história de maneira admirável. Aos poucos, e definitivamente, ele vai bordando com capricho as personalidades tão opostas de Gilbert e Sullivan, diferentes ainda em estilo de vida. E em paralelo, acumula e digere informações sobre aspectos de uma sociedade com ideais, convenções e costumes que agora parecem já tão distantes.
É exatamente como revelou em tom confessional o diretor: ‘‘Como eu vejo, os filmes deveriam ser sempre ricos em coisas que importam a nós, sempre. E as histórias deveriam ser sempre, também, recheadas de tensão.’’ Embora não revelado, o orçamento de ‘‘Topsy-Turvy’’ permitiu uma produção sobriamente requintada, com especial destaque para o desenho de produção, na melhor tradição britânica. E se pensarmos nesta mesma medida, os atores, todos desconhecidos das platéias de cinema, são tão bons quanto seus pares ingleses. E se nada disso fosse por si significativo, restaria ainda a ótima música de Gilbert & Sullivan, agora com certeza ainda mais próxima do grande público.

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