A música dos bichos, dos vegetais, das gentes está na coleção Música do Brasil
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terça-feira, 28 de março de 2000
Por Mauro Dias 
São Paulo, 29 (AE) - Ressalva para as iniciativas pioneiras de Marcus Pereira (e seu mapa musical do Brasil) e da Funarte (com a série Documento Sonoro): pouco se vinha fazendo para registrar em discos as manifestações da cultura popular. Nos últimos anos, surgiram várias iniciativas. Acaba de sair o primeiro volume de uma série de quatro, talvez cinco CDs, que, com o título genérico de "Das Lagoas, levanta a música religiosa, de trabalho ou de festa dos habitantes das lagoas que cercam Maceió. O violeiro Roberto Corrêa está recolhendo a música do entorno do Distrito Federal. A Rádio Educativa de Salvador edita, em CDs e fitas de vídeo, a variedade da vida cultural do interior do Estado da Bahia.
Minas começa a se mover: saiu há pouco um belíssimo disco com a música de festas do Vale do Jequitinhonha (com um erro: os coros foram gravados in loco, em igrejas e associações, mas os originais receberam desnecessários acréscimos em estúdio) e o Itaú Cultural está refazendo o "Documento Sonoro (as gravações da Funarte tinham má qualidade; perderam mais ainda na tentativa de transporte para o CD) e um projeto ainda em fase de montagem pretende registrar a riquíssima arte popular do interior de São Paulo.
Esses são alguns exemplos. Perceba-se que são regionais. "Música do Brasil, projeto de Hermano Vianna e Ernesto Baldan, é nacional. Como o mencionado trabalho feito pela Bahia, o registro é feito em discos (para a gravadora Abril Music) e vídeo (a MTV começou a mostrar os vídeos na sexta-feira: serão 15 programas; os discos começam a sair depois, como também tem lançamento posterior o livro com 132 fotos de Ernesto Badan).
A diferença desse para outros trabalhos não é só sua abrangência (são de cem números musicais nos quatro CDs). Há a visão específica do antropólogo Hermano Vianna motivando o trabalho. Diz ele que não existe "pureza original" e as "tentativas preservacionistas" pecam por achar que têm de isolar as manifestações.
Vianna diz que a batida da zabumba secular das Baianas Mensangeiras de Santa Luzia é semelhante à batida do drumnbass e do jungle, subgêneros surgidos na Inglaterra na década de 90. Talvez - a contagem quaternária não é monopólio de cultura ou tempo. Entretanto, diz - o que não pode ser discutido - que perservar é fazer com que essas manifestações continuem circulando.
O trabalho é muito bem-feito e importante e sua abrangência ilumina a existência de uma coluna dorsal que dá identidade nacional a manifestações tão diversas quanto o canto dos Caboclinhos de Ceará Mirim e os Fandangos de Paranaguá. Os discos foram organizados por temas: "Música dos Homens, das Mulheres das Umbigadas", no primeiro CD; "Música dos Mares e das Terras", no segundo; "Música dos Santos", no seguinte; e, no último, "Música das Coisas, dos Bichos e dos Vegetais. Neste último cabe o baiano Zambiapunga (eles batem em enxadas e sopram búzios) e o Cavalo Marinho Boi Pintado, de Pernambuco.
Maravilha que esteja registrado. Mas o Zambiapunga não é heavy metal, como está escrito no texto explicativo - não é heavy metal por bater na enxada com ferrinhos e não é heavy metal porque heavy metal é outra coisa. Vale lembrar que o grupo tinha acabado, nos anos 60, com a chegada da televisão à cidade que o sedia. Uma médica de lá (ou seria advogada?), que havia muito morava em Salvador, foi visitar a cidade e descobriu que seu folguedo de infância não existia mais. Resolveu retomá-lo, pôs dinheiro próprio na empreitada, conseguiu convencer os velhos artesãos a fazer as roupas e as máscaras. A tradição renasceu, não se sabe por quanto tempo mais.


