Antônio Mariano Júnior
Tinha que ser ele. Poderia ser outro, mas ninguém tem mais autoridade para gravar um disco instrumental só com músicas de Tom Jobim que João Donato. E não é exagero não! É que Tom quando não podia comparecer a alguma gravação ou show como pianista indicava Donato sem pestanejar. Tinha que ser Donato não outro. A admiração do maestro era tanta que, em muitas ocasiões, chegou a chamar publicamente o amigo de gênio.
Tom e muitos outros grandes têm razão: só um músico genial é capaz de pegar músicas conhecidíssimas, tocadas de todas as maneiras possíveis, e dar-lhes um sopro de vida novo. E assim fez João Donato com ‘‘Só Danço Samba’’ (Lumiar), seu sétimo disco, em que toca 14 canções feitas por Antônio Carlos Jobim - entre elas ‘‘Samba de Uma Nota Só’’, ‘‘Corcovado’’, ‘‘Wave’’ e ‘‘Garota de Ipanema’’.
E olha que Donato manteve as tonalidades e harmonias originais de músicas. Seu toque pessoal ficou por conta dos arranjos e, principalmente, de seus improvisos (curtos e deliciosos) o que já dignifica a obra de Tom e reafirma o talento desse acreano, que teve fundamental importância para a sedimentação da Bossa Nova.
Mesmo assim o nome de Donato não ficou tão associado ao movimento como o de Tom Jobim, o verdadeiro pai dessa ‘‘senhora’’ que está completando 40 anos de idade. Entretanto, a musicalidade desse João é admirada por muitos por um motivo especialíssimo: apesar de ser vigorosamente estruturada na sofisticação, chega aos ouvidos de uma maneira simples e agradável. Como a vida deveria ser. A seguir os principais trechos da entrevista que João Donato concedeu com exclusividade à Folha2.
Você acha que os 40 anos de Bossa Nova estão sendo comemorados à altura?
Acho que não. Estão faltando iniciativas por parte das gravadoras. A Bossa Nova é um prato que não oferecem porque não está no menu delas.
Então esse disco só com músicas do Tom pode ser entendido como um bom prato a ser oferecido ao público?
(rindo) Acho que sim!
Em ‘‘Só Danço Samba’’ você se ateve às harmonias e tonalidades originais. Por que não optou por uma releitura mais particular?
Eu tentei manter as harmonias porque são muitas bonitas. O Tárik de Souza escreveu num comentário no Jornal do Brasil que eu alterei as harmonias, que eu coloquei acordes diferentes do original. O Chediak (Almir) acha que troquei pouco. Não sei explicar direito. Então eu acho que é uma questão de ponto de vista.
O repertório contempla músicas conhecidíssimas que foram gravadas de muitos jeitos. O que você acha que acrescentou de diferente a discos com repertório similar?
Entrou minha leitura da coisa toda...Eu era muito amigo do Tom Jobim e a admiração era mútua. Eu escolhi essas músicas porque são as que mais gosto, que eu prefiro tocar. A diferença dos demais discos deve ser porque minha proximidade com o Tom era muito grande. Ele gostava do meu modo de tocar piano. Quando ele não podia fazer certas gravações ou shows ele me telefonava e dizia: ‘‘Só você pode fazer no meu lugar.’’ É isso!
O que mais o impressiona nas composições dele?
As melodias dele são muito lindas. Em relação às harmonias do Tom, eu até acho que posso fazer coisa parecida, mas as melodias dele são muito deliciosas e com apelo popular. São músicas que o povo gosta e o mundo inteiro reverencia. As músicas do Tom têm uma melodia muito doce. Todo lugar do mundo conhece as músicas do Tom, gosta, aceita, faz versões. A música do Tom é a mais bonita do mundo.
Por que vocês nunca compuseram juntos?
Não deu. Nunca pensamos em fazer alguma coisa juntos o que é uma pena porque se tivéssemos pensado certamente teríamos feito.
Você não grava discos com frequência. Quem foge de quem, você das gravadoras ou vice-versa?
Falta interesse por parte das gravadoras porque elas não têm espaço para esse tipo de música que faço. A única pessoa que se incomoda comigo é o Chediak que tem uma companhia pequena.
Mas que tem respeito e prestígio.
Isso é. E é a única que me convida para fazer alguma coisa. O dinheiro é tão forte que amigos meus que trabalham em companhias de discos não me convidam para gravar. Eles têm satisfação a dar para a diretoria e se me chamarem para gravar podem até perder o cargo. O Roberto Menescal, quando era diretor artístico da Polygram, um dia me falou: ‘‘Olha, João, eu admiro você pessoalmente mas para ter você na companhia eu preciso contratar Ney Matogrosso, Wando, Chitãozinho e Xororó porque senão eles me despedem.’’
Você nunca tentou ser pop? Partir para o eletrônico?
(rindo) Não. Eu já fiz experiências eletrônicas, quando trabalhava nos Estados Unidos, para ver o que acontecia. Mas não é meu território não, é muito estranho. Não deu resultado!
Como então você define sua música?
Minha música é simples. Sou do Acre e um dia ouvi uma música, numa canoinha passando, ao cair da tarde, e um camarada assoviando.( NR assovia um trecho de ‘‘Lugar Comum’’). Eu fiquei com esse negócio na cabeça, rapaz. Eu era criança, tinha oito ou nove anos. Essa música me deu uma coisa nostálgica. Então eu acredito que me baseei nisso, na singeleza dessa música para o resto da minha vida.
O Tom se arriscava bastante como letrista, você não. Por que?
Não adianta, não sai nada.
Mas saiu ‘‘Flor de Maracujᒒ, que você escreveu para Gal...
(rindo bastante) É verdade! É uma das raras letras minhas. Fiz junto com meu irmão, o Lysias ( NR Ênio, co-autor). Eu disse pra ele: ‘‘Quero fazer uma letra para a Gal.’’ E ele: ‘‘Mas o que você quer dizer?’’ E eu disse: ‘‘Que ela é linda, que o cabelo dela voa ao vento e aí vai.’’ E ele respondeu: ‘‘Então diga.’’ E eu fiz porque ele me instigou a fazer isso. E é raro porque minha veia poética é quase nenhuma. É por isso que eu procuro letristas.
Aliás, você deu suas músicas para um monte de gente colocar letras: Caetano, Martinho da Vila, Abel Silva, Cazuza. Mas parece que foi em Gilberto Gil que você encontrou seu parceiro ideal, pela quantidade de músicas feitas, não?
Eu diria que sim porque o jeito como a gente faz as músicas, sem planejar, é único. Combinamos direitinho. Não que não combine com os demais, mas com Gil tem uma coisa que dá tão certo. Nós temos, eu e o Gil, muitas coisas parecidas musicalmente. Quando a gente se encontra é difícil não fazer uma música.
Voltando a Gal. Se você disser que ela é sua intérprete favorita a Nana Caymmi bate em você?
(rindo bastante) Eu diria que Gal e Nana são minhas intépretes favoritas.
Quem você gostaria que gravasse uma de suas músicas?
A Maria Bethânia. Outro dia eu ouvi a Bethânia cantando ‘‘É o Amor’’, aquela música do Leandro e Leonardo...
Não, é do Zezé di Camargo!
Ah, é do Zezé? Então... Eu achei muito bonito. Como pode a Bethânia pegar uma música dessas que a gente acha antipática e torná-la agradável e bonita? Eu digo antipática porque as duplas cantam suas músicas com voz de anão. Cantam muito agudinho e fica uma coisa insuportável pelo menos para mim que sempre gostei de jazz, de música mais elaborada, mais harmoniosa. Então acho terrível quando ouço dupla sertaneja cantando. E aí surge a Bethânia com uma leitura que faz com que a gente veja que a música é até bonita quando não cantada pelos anões.
Você se gosta como cantor?
(rindo) Não, como cantor não. Eu me gosto como pianista. Eu gravo cantando para mostrar minha música para os outros. Minha gravação serve de demonstração para os cantores bons cantarem depois. Eu não me considero um cantor e nem gravo disco com intuito de estourar na parada nem para competir com Roberto Carlos ou Cauby Peixoto.
O Brasil lhe foi grato?
Acho que sim. Eu tenho minha vida aqui, minha família aqui, meus filhos aqui, meus pais, meus amigos, minha música, minhas namoradas. Então eu sou muito grato ao Brasil, não tenho do que reclamar.O compositor João Donato está lançando ‘‘Só Danço Samba’’, disco instrumental com músicas de Tom Jobim
ReproduçãoDivulgaçãoJoão Donato: ‘‘Eu era muito amigo do Tom e a admiração era mútua. Escolhi para o disco as músicas dele que mais gosto’’

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