Depois de entrar em contato com ritmos brasileiros ‘‘nada agradáveis’’, como ele mesmo classifica, o coreógrafo suíço Philipe Saire criou o espetáculo ‘‘La haine de la musique’’, que tem apresentação hoje e amanhã no Filo. A temática calcada na falta de proteção do homem às mazelas musicais é o fio condutor do espetáculo, inspirado no livro ‘‘Ódio à música’’, do escritor francês Pascal Quignard. A coreografia nasceu da experiência de Saire no Brasil, há dois anos, quando ele entrou em contato com a invasão de sons como axé, pagode e outros barulhos de melodia duvidosa. Foi a partir dessa experiência que Saire constatou: ‘‘as orelhas não tem pálbebras’’. Então, como se proteger dessa balbúrdia sonora?
Saire foi buscar inspiração na obra de Quignard, o mesmo autor do romance ‘‘Todas as manhãs do mundo’’, que ganhou versão cinematográfica protagonizada por Gerard Depardieu. ‘‘O livro é uma reflexão sobre a relação da música e do silêncio’’, considera Saire. E seu espetáculo leva ao palco essa contemplação. Temas que dançam em torno do poder de comunicação dos sons são abordados de forma provocativa. ‘‘A música indica comunhão, mas também impede a comunicação individual’’, salienta o coreográfo.
A experiência conflitante de Saire no Brasil durou apenas dois meses. Ele não renega boas influências, como Jobim, Villa-Lobos e Gilberto Gil, nomes que ressalta, mas confessa que os trios elétricos que ouviu no Nordeste, onde a companhia aportou para participar de um projeto internacional de dança, não foi das experiências mais agradáveis. ‘‘Não detesto a música brasileira, mas o que as pessoas podem fazer com ela’’, observa numa referência à massificação exagerada das melodias.
Os onze bailarinos da companhia que leva o nome de Saire querem mostrar com o corpo e ritmo a violência e agressividade presente na imposição dos sons. Utilizam o silêncio, mas também passeiam por composições criadas especialmente para o espetáculo, executadas ao vivo. No palco, percussão, celo e guitarras são o tom à coreografia. Assim como o livro, compara Philippe Saire, a coreografia foi criada em vários capítulos.
O espetáculo estreou na Suiça o ano passado e se apresenta no Brasil -berço da idéia– pela primeira vez. Depois do Filo tem agenda no Sesc Anchieta, em Saõ Paulo, nos próximo dias 29 e 30 de maio.

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