O teatro está quente, abafado. Respira-se, no entanto, muita música. O piano Essenfelder enorme, negro, ocupa o centro do palco. Atrás, ao redor, as estantes com partituras, os músicos a meio caminho da arrumação impecável. Enquanto esperam o maestro que conversa com o pianista, ajustando acordes, marcando o ritmo, sintonizando a harmonia, afinam seus instrumentos, conversam baixinho, estudam a música, compenetrados. Chilreios de violino escapam da platéia. De lá vêm também sons dissonantes, flashes dos fotógrafos, espocar das luzes que orientam as câmeras dos cinegrafistas, o zunzum dos repórteres atrás de informações e entrevistas.
O pianista é norte-americano, o maestro é búlgaro, os musicistas da orquestra são brasileiros, de diversas ascendências, sendo que a cidade, a abrigar o concerto, é de origem inglesa. Tantas etnias. Uma partitura escorrega e cai com espalhafato. Tantas folhas. O maestro chama quem está distante, define-se uma tentativa de organização, um celular toca. Tão pouco apropriado. O maestro levanta as mãos. Quando as abaixa, um som melodioso emerge, como se estivesse direcionado para o céu. Logo, surge o fraseado delicado do piano, que acompanha com facilidade a ascensão do som da orquestra, pondo em tudo reflexos cristalinos. Os celos se impõem, chamando os que sobem de volta. Os violinos interferem, exigindo que o vôo livre seja mantido. Monólogos, diálogos, duetos, parcerias se sucedem. Os instrumentos conhecem-se entre si e sabem sobre o que conversar, sem palavras. ''Elas são insuficientes'', diz o pianista Harold Brown, citando Mendelssohn, ''para expressar as maiores emoções''. Por isso, complementa, ''a música começa, quando a palavra acaba''. (A.S.)

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