A música com que cantora e compositor vingaram-se do preconceito
Composição de Billy Blanco permitiu Dolores Duran uma graciosa vingança, pois, gravada por ela, seria grande sucesso
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sábado, 11 de julho de 2026
Composição de Billy Blanco permitiu Dolores Duran uma graciosa vingança, pois, gravada por ela, seria grande sucesso
Domingos Pellegrini 

William Blanco Abrunhosa Trindade nasceu em Belém do Pará, adotando o nome Billy Blanco quando foi estudar Arquitetura no Rio de Janeiro, tornando-se compositor de centenas de músicas. Apesar de sua definição de que “arquitetura é música petrificada”, na internet não se acha qualquer obra arquitetônica sua, embora se ache várias obras-primas da MDB, como Banca do Distinto.
A música tem história: nasceu quando a compositora Dolores Duran, sua namorada, lhe contou que um cliente da boate Little Clube lá ia muitas vezes ouvi-la cantar, no entanto sentando longe e de costas para o palco.
Mas ela sabia que ele tanto gostava de ouvi-la que voltemeia pedia ao garçom: “Diga à negrinha (Dolores era mestiça) para cantar tal música”. De vez em quando, ele mostrava se achar tão distinto que, querendo levar prato feito para casa, pedia que alguém levasse o embrulho até seu carro, pois não achava digno de um cavalheiro carregar embrulho...
Por isso, Billy começou seu samba relacionando os preconceitos do “distinto”, antes de fazer duas perguntas chaves em vez de recriminar: “Não fala com pobre/ não dá mão a preto / não carrega embrulho... / Pra que tanta pôse, doutor / pra que esse orgulho?”
(Há que lembrar ser a palavra “distinto” originária do Latim “distinguere”, que significa separar, dividir ou assinalar, revelando assim o duplo sentido do sujeito se distinguir não por bom comportamento mas, pelo contrário, por seus preconceitos.)
Mas, em vez de simplesmente ou apenasmente condenar o distinto, Billy recorre a personagem que a todos iguala, a morte: “A bruxa que é cega / esbarra na gente / e a vida estanca / O enfarte lhe pega, doutor / e acaba essa banca”.
Billy dizia serem suas músicas como crônicas da vida carioca, e assim, além de evitar condenação explícita, o cronista apequena o distinto transgressor ao coloca-lo diante do destino maior de todos nós... Mas retoma sua fala ao distinto lembrando a fonte de sua pequenez, a vaidade, através de versos com simplicidade e singeleza notáveis, comparando a vaidade a alto coqueiro cujos frutos porém acabam no chão: “A vaidade é assim / põe o bobo no alto / e retira a escada / mas fica por perto / esperando sentada: / mais cedo ou mais tarde / ele acaba no chão. / Mais alto o coqueiro / maior é o tombo / do côco afinal / todo mundo é igual / quando o tombo termina / com terra por cima / e na horizontal”... ressaltando-se que “terra” se contrapõe depreciativamente à suposta superioridade do distinto.
Assim, colocando no chão quem se acha superior, sugere que crenças estúpidas ou desumanizadoras pode-se rechaçar sem dureza mas com irrefutável graça.
A reparar também: o “distinto” que poderia ser taxado de preconceituoso ou racista, é apenas chamado de “bobo”, visto assim como vítima da própria presunção - e “esperando sentado”, com essa linguagem coloquial, comum, a constrastar com sua distinção.
A música de Billy permitiria a Dolores uma graciosa vingança artística, pois, gravado por ela, seria grande sucesso, rendendo à cantora e ao compositor reconhecimento nacional...


