Ivan Lins, um dos autores brasileiros mais conhecidos e executados fora do Brasil, conta como nasceu a música ''Dinorá'', que chegou a ser gravada nos Estados Unidos por George Benson e fez muito sucesso por lá:
''Eu tinha entregado a música para o Vítor Martins. Tava numa fita e ele levou para casa, mas não conseguia achar um tema pra desenvolver a letra. Aí um dia nós estávamos num botequim ali na Cinelândia, um botequim assim bem pé rapado, a gente tinha saído de uma gravação, tarde da noite, né. Aí tinha um cara do lado, conversando com uns três ou quatro, assim o cara cabelo de gomalina tal, todo malandrão e tal. E o cara falando 'Pois é, peguei a mulher e tal, fiz isso, fiz aquilo, botei em cima da mesa...' E a rapaziada, todo mundo lá. Toda vez que o cara parava para pedir uma cerveja, o pessoal 'Vai lá, continua, tal'. O cara o rei da narração. Então eu falei pro Vítor: 'Esse cara é o maior mentiroso. Isso tudo é mentira'. Aí o Vítor sacou a letra de 'Dinorá'. Quer dizer, a Dinorá na verdade era uma menina de calendário. Esse cara na verdade tem o retrato dessa mulher que ele tá falando aí lá no quarto dele, entendeu. Ele mora num quarto na Lapa. Aí ela pega o terno branco, marca o paletó de batom pra convencer a rapaziada que ele realmente acabou de vir do motel. Aí o Vítor escreveu a letra''.
Guilherme de Brito, parceiro de Nelson Cavaquinho, conta do dia em que recebeu um telefonema de Cartola:
''Um dia ele ligou par minha casa e falou assim 'Guilherme, eu quero gravar esse samba 'Pranto de Poeta', mas tenho algumas dúvidas na letra, queria que você me ensinasse como é'. Então eu pelo telefone passeio pro Cartola. Mas eu fiquei cabreiro. Pô, por que o Cartola, com o repertório tão fabuloso que ele tem, quer gravar esse samba? Depois é que eu entendi. Porque logo depois que ele gravou o samba ele morreu. Estava prevendo a morte dele quando ele quis gravar esse samba que termina assim: 'Em Mangueira / Quando morre um poeta / Todos choram / Vivo tranquilo em Mangueira porque / Sei que alguém há de chorar / Quando eu morrer''.
Por que Nelson Gonçalves enveredou pelo música? Ele próprio conta:
''O que me levou a cantar profissionalmente foi o seguinte: eu lutava boxe. Um dia tô em Santos lutando com Acosta, um uruguaio bom pra burro. Ele dá na minha cara, pá. Não eu nele, ele pá em mim. No segundo round, a mesma coisa: ele pá em mim até que cai. Aí veio o juiz: 'Um, dois...' Eu digo: 'Pode mandar até mil que eu vou ficar aqui. Pode contar que eu tô aqui, filho'. Acabou, eu digo: 'ah, ces't fini la contradance'. Aí fiz um teste na Rádio São Paulo e passei como cantor''.
Ivan Lins, Guilherme de Brito e Nelson Gonçalves contam suas histórias e contribuem com elas para uma história ainda maior: a história da música popular brasileira. Que tal ser uma testemunha dessa história?
Esse é o precioso convite feito pela série ''A Música Brasileira Deste Século Por Seus Autores e Intérpretes'', uma coleção que tem seus volumes 7 e 8 lançados agora pelo Sesc e pela Fundação Padre Anchieta.
A nova leva é composta por 25 CDs e dois livros. A coleção reproduz os depoimentos dados por grandes nomes da nossa música aos programas ''MPB Especial'' e ''Ensaio'', ambos da TV Cultura.
O primeiro ''MPB Especial'' foi ao ar em 1969, na extinta TV Tupi. Mais tarde, como ''Ensaio'', migrou para a TV Cultura, e ainda está no ar. Desde a estréia, foram mais de 200 programas. Cem deles estão transcritos em livros e CDs e formam a coleção ''A Música Brasileira Deste Século por Seus Autores e Intérpretes''.
Cada CD traz a íntegra das entrevistas feitas pelo produtor Fernando Faro, respeitando o formato original dos programas. Faro idealizou um inventivo formato para a televisão: o público não ouve as perguntas, somente as respostas dadas pelos entrevistados, que falam sobre suas vidas e interpretam as obras que marcaram suas carreiras. O clima de intimidade das conversas é envolvente.
Os livros trazem as transcrições das entrevistas e notas que contam mais sobre nomes, lugares ou acontecimentos citados pelo entrevistado ou que corrigem algum erro de informação ou até mesmo algumas das letras de músicas, que mesmo os autores chegam a confundir.
Os artistas que fazem parte da nova fornada da coleção, cada qual representando uma faceta importante da MPB, são Dona Ivone Lara, Guilherme de Brito, Henrique Cazes, Isaurinha Garcia, Ivan Lins, Lúcio Alves, Lúcio Cardin, Luiz Vieira, Nelson Gonçalves, Raphael Rabello, Sá & Guarabira, Sílvio Caldas, Taiguara, Beth Carvalho, Fagner, Fátima Guedes, Gonzaguinha, Mauro Duarte & Noca da Portela, Mestre Ambrósio, Nara Leão, Nei Lopes, Orlando Silva, Renato Borghetti, Roberto Corrêa e Roberto Luna.
Cada volume custa R$ 80,00 (todos os já editados estão à venda) e podem ser comprados nas unidades do Sesc, por e-mail (mpb@pompéia.sescsp.com.br) ou diretamente no site do Sesc (www.sescsp.org.br). O valor é exclusivamente para cobrir despesas de produção e direitos autorais.
Jersey Gogel é jornalista e produtor
musical da rádio Universidade FM

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