A música popular brasileira nasceu no momento em que o português se misturou aos escravos e índios. Essa é a opinião de Ricardo Cravo Albin, crítico de MPB que participa amanhã da conferência ‘‘Música e Identidade Brasileira’’, às 18h15, na Associação Médica de Londrina. O debate contará também com a presença do crítico Luiz Paulo Horta, do jornal ‘‘O Globo’’.
ReproduçãoChico BuarqueA MPB, como resultado da mestiçagem, seria um dos melhores frutos da cultura brasileira. ‘‘Para ser preciso, a MPB se firma para valer ao final do século passado, com duas datas absolutamente nevrálgicas: a abolição, em 1888, e a proclamação da República, em 1889’’, explica Albin.
Com a abolição, os escravos que exercitavam timidamente sua expressão musical passaram a tocar e cantar com a veemência de homens livres. ‘‘Do lundu aparece o samba. Os mestiços que tinham criado o choro por volta de 1870 consolidam o estilo com Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga’’, acrescenta.
ReproduçãoChiquinha GonzagaO samba só surgiria no início do século 20, com os pagodes das famosas tias baianas, realizados nos casarões abandonados pela aristocracia na Praça 11, no Rio de Janeiro. ‘‘Apesar das discussões que existem sobre o assunto, apóio a formalização de ‘Pelo Telefone’ como samba inaugural. E é claro que o Brasil cultivou gêneros musicais em todos os recantos. Mas a capital federal foi o grande centro, de onde as músicas saíam para serem consumidas’’, esclarece Albin, lembrando que existiam manifestações folclóricas nos outros Estados do País: ‘‘O Brasil possui uma diversidade de ritmos que o tornam o lugar mais sedutor do mundo na música’’.
ReproduçãoPixinguinhaO samba, o choro e a modinha seriam a base da música popular brasileira. A modinha daria origem à valsa, à canção e a vários outros estilos. ‘‘O maxixe, por exemplo, veio da mazurca, mas é brasileiro. O choro também tem origem na mazurca e no schottisch’’, ressalta.
Para o crítico, milhares de compositores usufruíram desse legado. No livro ‘‘MPB - História de um Século’’, lançado na Academia Brasileira de Letras no início do ano, Ricardo Cravo Albin relaciona cerca de 400 nomes que contribuíram para a história da música brasileira.
ReproduçãoTom Jobim‘‘Naturalmente, pode-se abrir com Chiquinha Gonzaga, maestrina extraordinária que enfrentou muitos preconceitos na época, além de Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Noel Rosa, Braguinha, Ary Barroso, Dorival Caimmy, Lamartine Babo, Ataulfo Alves, Lupicínio Rodrigues e Capiba, para citar alguns’’, relata.
A dupla Ary Barroso e Carmen Miranda se tornou o primeiro grande surto de propagação da MPB no exterior. Já na década de 50, entre os destaques, Albin relaciona Tom Jobim, Vinícius de Moraes e João Gilberto. ‘‘A Bossa Nova teve o privilégio de consolidar a música popular consumida em todo o Brasil. Posteriormente vieram nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Milton Nascimento e Ivan Lins, para ficar em poucos’’, afirma Albin, que é crítico do jornal ‘‘O Dia’’ e foi um dos estruturadores do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, além de presidente da Embrafilme e do Instituto Nacional de Cinema.
O crítico não concorda com as opiniões de José Ramos Tinhorão, que considera a Bossa Nova uma extensão do jazz norte-americano: ‘‘Tenho profundo respeito pela seriedade do Tinhorão, mas discordo na essência da dedução. É claro que há um fundamento de sedução dos músicos da Bossa Nova pelo jazz, o que não significa que o ritmo tenha se tornado um jazz às avessas. Mas é importante que se abra o debate, o Tinhorão tem uma importância muito grande por causa disso’’.
E foi justamente para colocar lenha na fogueira que Ricardo Cravo Albin reuniu vários críticos na Associação Brasileira de Letras, no final do ano passado, para listar as 14 principais músicas brasileiras do século 20. A polêmica já envolveu a canção escolhida como número um, ‘‘Aquarela do Brasil’’, apontada por alguns estudiosos como instrumento de divulgação do fascismo. ‘‘Mas a canção sobreviveu a tudo isso’’, assegura Albin.
A lista englobou ainda ‘‘O Bêbado e a Equilibrista’’, ‘‘Carinhoso’’, ‘‘Alegria Alegria’’, ‘‘O Que Serᒒ, ‘‘Chão de Estrelas’’, ‘‘Pelo Telefone’’, ‘‘Se Você Jurar’’ e ‘‘Chega de Saudade’’, entre outras. Os critérios para a classificação foram a qualidade da composição e sua importância histórica.
Outra polêmica levantada pela lista envolveu o ano limite das composições, fixado em 1979. ‘‘O júri entendeu que ainda não havia uma eternização das canções que vieram em seguida para que justificasse essa glória. Eu interpreto que não houve qualidade. Mas o assunto deu pano para a manga, e era exatamente o que eu queria: debater a música brasileira’’, revela. Este é o clima que Ricardo Cravo Albin está reservando para a conferência de amanhã.
Música e Identidade Brasileira - Ciclo de Conferências do 18º Festival de Música de Londrina. Amanhã às 18h15 na Associação Médica de Londrina, na Praça 1º de Maio, 130. A conferência será aberta a todos os interessados.

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