A música atemporal de Sérgio Mendes
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quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Lucas Nobile<BR> Agência Estado 
''Rodriguinho barra limpa, primeiro realista mágico de Niterói, avisa ao tio Lee que a ordem do dia é fralda larga e leite morno.'' O que era para ser apenas um telegrama de Sérgio Mendes para o amigo e pintor Wesley Duke Lee festejando o nascimento de seu primeiro filho, Rodrigo, no dia 6 de abril de 1964, transformou-se em adeus para o pianista e compositor. O golpe acabara de eclodir no Brasil e, no dia seguinte à correspondência, em mais um atestado de ignorância completa, empunhando suas metralhadoras os militares invadiram o apartamento de Mendes na Rua Belisário Augusto, em Niterói, para prendê-lo por julgarem o conteúdo da carta subversivo. Sete meses depois, correndo atrás da liberdade improvável no Brasil daqueles tempos, com a ajuda de um amigo do Itamaraty, ele armou a fuga para os Estados Unidos, onde vive até hoje, na Califórnia.
Com as mãos aparentemente frágeis e trêmulas, Sérgio Mendes levanta uma xícara grande de cappuccino para molhar as palavras que contam tantas histórias de hoje e de tempos atrás. As do presente dizem respeito a seu 43º disco, ''Bom Tempo'', lançado no mundo inteiro neste ano e ao show que ele faria no palco principal do North Sea Jazz Festival, em Curaçau, no começo de setembro. As do passado remetem às lembranças artísticas, como seu primeiro álbum, ''Dance Moderno'', que ano que vem completa 50 anos, e às recordações afetivas como a vida nos Estados Unidos, onde mora há quase cinco décadas, e a distância de Niterói, sua cidade natal.
A saudade do berço fluminense é tamanha que até a placa do carro de Mendes, na Califórnia, traz escrito ''Niterói''. ''Carrego com muito orgulho e carinho. Ninguém lá sabe o que significa. Tem cara que vem me dizer que é 'nite roi', o rei da noite. Foram tempos incríveis em Niterói e no Rio, o convívio e as jam sessions no Beco das Garrafas. Você nunca perde o lugar onde nasceu. Isso nunca mais sai da sua alma'', diz o compositor. Em fevereiro, Mendes faz 70 anos com vitalidade e memória surpreendentes. As apresentações pelo mundo inteiro não cessam e as histórias são relembradas em ordem cronológica, com data, local e detalhes definidos.
A ida para os Estados Unidos com um grupo recém-formado, integrado por ele, Jorge Ben, Chico Batera, Tião Neto, Wanda Sá e Rosinha Valença, as diferentes formações do Bossa Rio - com o qual gravou discos antológicos, entre eles o revolucionário ''Você Ainda Não Ouviu Nada'', de 1963, com arranjos de Tom Jobim e seu professor Moacir Santos para big band na época em que imperava o violão intimista da bossa nova -, do conjunto Brasil 66, e as amizades, as gravações e os shows com uma lista enorme de lendas como Frank Sinatra, Cannonball Adderley, Herb Alpert até as gerações mais recentes, como Black Eyed Peas, Erykah Badu, John Legend, Justin Timberlake, Seu Jorge e Carlinhos Brown.


