A MULHER QUE TODOS DESEJAM
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de julho de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha 2 
Tivesse sido realizado no final dos anos 40, Que Mulher é Esta ? seria um filme direto, uma fábula em preto-e-branco sobre uma dama amoral dotada de artifícios encantadores e nenhum coração, capaz de enfeitiçar e virar de cabeça para baixo um trio de marmanjos até o desfecho passional, violento com certeza uma troca de tiros num beco expressionista qualquer. Veronica Lake poderia ser a tal, rodeada talvez por Burt Lancaster, Kirk Douglas e Robert Mitchum, quem sabe Alan Ladd como um coringa menos brutamontes.
Nestes já nebulosos anos 2000, no entanto, a história é criada visando ao riso e o citado confronto final entre os três homens embasbacados diante da deusa está aqui bem mais para guerra de tortas numa iluminada sala modesta. A femme fatale deste mais ou menos desconjuntado filme noir é Jewel (Liv Tyler), uma espécie de artista do crime que se envolve com o bartender Randy (Matt Dillon), o primo dele, o advogado Carl (Paul Reiser) e o detetive Dehling (John Goodman). Revisitando à distância (muita distância) o clássico Rashomon de Akira Kurosawa, o roteiro de Que Mulher é Esta? coloca na boca dos três personagens masculinos a mesma história, e todas começam exatamente no mesmo ponto: o momento em que conheceram Jewel. Três homens não exatamente suspeitos e uma mulher vive um sonho vão se relacionar e se ligar. Como pano de fundo, o desejo, pequenos delitos, DVD, bingo e outros elementos variados.
Em 1994, Quentin Tarantino e seu Tempo de Violência popularizaram um estilo de filme policial muito particular. Nele, a galeria de personagens e respectivas interações, físicas ou verbais, eram mais importantes que o próprio roteiro. De lá para cá, inúmeros cineastas se lançaram à aventura. Que Mulher é Esta?, estréia na direção do clipeiro e publicitário norueguês Harald Zwart, segue a mesma senda, tomando os principais ingredientes: personagens manipulados por uma beleza manipuladora e fatal. O princípio do filme é simples: três machos estupidificados pela silhueta enganadora da bela Liv, arquitetando os piores estratagemas para seduzi-la. Mas no caminho desse processo estão um morto, um roubo e outros empecilhos, tudo armado com certa habilidade pelo roteirista San Seidel, morto precocemente ano passado sem ver na tela o resultado de seu primeiro e último trabalho para o cinema.
O mecanismo demonstrado aqui é óbvio: todo homem é uma vítima de suas ilusões românticas, e cada um dos envolvidos em Que Mulher é Esta? insiste em ver em Jewel o preenchimento de seus desejos. Para Randy, ela é a mulher que pode substituir sua doce mãe falecida. Para o egocêntrico Carl, ela é a mulher má que vai usar o velho chicote em lugares insuspeitados do corpo. E para o religioso Dehling, ela é um anjo que precisa de sua sufocante proteção.
Liv Tyler é mais carnalidade que talento, isto é óbvio e salta aos olhos da platéia unissex não esquecer Dr. T. e as Mulheres .A atriz está sempre sob o fio da navalha, em equilíbrio instável entre a fêmea insuportável e a frágil desajustada. Os homens fazem o papel prescrito, isto é, a corte. E quem se sai melhor é John Goodman. Que Mulher é Esta ? é um autêntico filme B que se inscreve na retaguarda das grandes produções do gênero. E tem lá sua eficácia como farsa divertida e ritmada.


