A MULHER QUE NÃO AFUNDOU NAVIOS
Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
A poeta Ana Cristina Cesar é um caso raro dentro da literatura brasileira. Em vida publicou um único livro e conquistou milhares de admiradores. Foi o bastante para inaugurar um estilo personalizado que iria influenciar a produção das gerações posteriores. De cunho confessional, transferiu a linguagem dos diários íntimos e das cartas para a poesia de maneira elegante. Essa tornou-se sua grande marca.
Quase vinte anos após sua morte, Ana Cristina Cesar não perdeu a aura dourada dos movimentos contraditórios, a afirmação da vida e a opção pela morte. Ainda é uma imagem presente tanto na poesia brasileira como no coração dos leitores. Prova disso está no lançamento do terceiro volume de suas obras completas, Crítica e Tradução, pela Editora Ática em conjunto com o Instituto Moreira Salles.
Reunindo três livros póstumos num único volume, Crítica e Tradução fecha a produção da carioca Ana Cristina Cesar iniciada com A Teus Pés e Inéditos e Dispersos. Recentemente veio à luz, pela Editora Aeroplano, sua correspondência da década de 70 selecionada por Heloisa Buarque de Hollanda.
Ana Cristina Cesar morreu prematuramente aos 31 anos de idade. Atirou-se pela janela do sétimo andar do apartamento dos pais em 29 de outubro de 1983. Estava na casa dos pais recuperando-se de outra tentativa de suicídio, depois de permanecer semanas internada numa clínica médica. O suicídio talvez tenha conferido um elemento complementar à sua obra, embora ninguém fale do assunto.
O suicídio de Ana, justamente no momento de sua grande ascensão literária, desperta inúmeras questões. O professor Ítalo Mariconi, em seu livro Ana Cristina Cesar publicado pela Editora Relume Dumará, assinala que a poeta foi abatida por uma verdadeira síndrome do sucesso após o lançamento de seu primeiro livro, A Teus Pés. Em sua palavras, Ana Cristina sentiu enorme náusea diante do sucesso do livro e de como todas as atenções se focalizavam sobre sua pessoa e sobre sua beleza carismática e não sobre o conteúdo literário do livro, no entanto sofisticadíssimo, resultado de uma reflexão estética.
Curiosamente, em um de seus poemas, Ana deixou registrado a seguinte frase: As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.
Para aqueles que não conhecem a obra de Ana Cristina Cesar e desejam conhecê-la, é recomendável começar como a leitura de A Teus Pés. Em seguida, devorar Inéditos e Dispersos. São seus dois livros básicos e únicos.
A Teus Pés
ReproduçãoA Teus Pés é o primeiro e único livro publicado por Ana Cristina Cesar em vida. Lançado originalmente em 1982 pela Editora Brasiliense, é composto de quatro breves livros, o até então inédito A Teus Pés, e outros três publicados pela própria autora em pequenas edições particulares: Cenas de Abril (1979), Correspondência Completa (1979) e Luvas de Pelica (1980). Com o lançamento de A Teus Pés a poesia de Ana Cristina Cesar passou a ser conhecida por um amplo público, passando a ser considerada a grande revelação da nova poesia brasileira da década de 80. A nova edição da Editora Ática respeitou a quebras de linhas idealizadas pela autora e inseriu novas fotografias.
A Teus Pés De Ana Cristina Cesar, Editora Ática/Instituto Moreira Salles, 152 páginas, R$ 24,90.
Inéditos e Dispersos
ReproduçãoPublicado originalmente em 1985 pela Editora Brasiliense, dois anos após o suicídio de Ana Cristina Cesar, Inéditos e Dispersos reúne poemas inéditos escritos entre 1961 e 1983. A seleção e organização foi realizada pelo poeta carioca Armando Freitas Filho, amigo de Ana. Apresentados em ordem cronológica, os escritos (poesia e prosa) são naturalmente uma extensão de A Teus Pés. Além de fotos, a edição traz uma história escrita e ilustrada pela autora quando criança.
Inéditos e Dispersos De Ana Cristina Cesar, Editora Ática/Instituto Moreira Salles, 238 páginas, R$ 24,90.
Crítica e Tradução
ReproduçãoCrítica e Tradução reúne num só volume três livros de textos ensaísticos de Ana Cristina Cesar. Literatura Não é Documento, publicado originalmente pela Funart em 1980, traz em estudo (tese de mestrado) sobre as visões de literatura dentro dos documentários enfocando escritores brasileiros. Escritos da Inglaterra, organizado por Maria Luiza Cesar e Armando Freitas Filho e publicado pela Editora Brasiliense em 1988, traz ensaios e trabalhos acadêmicos realizados por Ana na época em que morou na Inglaterra. Escritos do Rio, organizado por Armando Freitas Filho e publicado pela Brasiliense em 1993, reúne textos jornalísticos de Ana publicados na imprensa nacional, principalmente no jornal Opinião.
Crítica e Tradução De Ana Cristina Cesar, Editora Ática/Instituto Moreira Salles, 464 páginas, R$ 34,90.
Poemas
Nada disfarça o apuro do amor.
Um carro em ré. Memória da água em movimento. Beijo.
Gosto particular da sua boca. Último trem subindo ao
céu.
Aguço o ouvido.
Os aparelhos que só fazem som ocupam o lugar
clandestino da felicidade.
Preciso me atar ao velame com as próprias mão.
Sirgar.
Daqui ao fundo do horto florestal ouço coisas que
nunca ouvi, pássaros que gemem.
Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto
(Poemas de Ana Cristina Cesar extraídos dos livros A Teus Pés e Inéditos e Dispersos)





