A mulher que dava nó em cobras
Livro infantil
do escritor
mexicano
Francisco
Hinojosa conta
a história
Reproduçãoda mulher
mais malvada
do mundo
Todos são passíveis de ira. Nem mesmo as dóceis mulheres estão imunes aos incontroláveis surtos de cólera. Algumas delas até têm um certo prazer em tal sentimento.
Há algum tempo atrás, em um pequeno povoado, existiu uma dessas mulheres. Seu prazer estava da maldade. ‘‘Era gorda como um hipopótamo, fumava charuto e tinha os caninos pontiagudos e brilhantes. Além disso, usava botas de bico fino e tinha unhas compridas e afiadas, que adorava usar para arranhar as pessoas.’’
Seus cinco filhos passavam maus bocados em suas mãos. Batia em todos eles quando tiravam notas baixas na escola. Também batia quando tiravam notas altas. ‘‘Espremia limão nos olhos deles, tanto se fizessem travessuras como se ajudassem a varrer a casa ou a lavar os pratos.’’ Como se não bastasse, servia-lhes comida de cachorro no café da manhã. Aquele que não raspasse o prato, sofria o castigo de dormir no galinheiro.
Homens, mulheres e crianças corriam quando ela colocava os pés na rua. Até mesmo as formigas não se atreviam a fazer um formigueiro em seu quintal. Sempre brava, com raiva, irada, era a mais malvada de todas as mulheres malvadas do mundo.
Esta mulher, capaz de dar nó em víboras, foi criada pela mente do escritor mexicano Francisco Hinojosa. Ela e suas maldades povoam o livro ‘‘A Pior Mulher do Mundo’’ lançado pela Editora Nova Fronteira. Destinado ao público infantil, a história é ilustrada por Rafael Barajas,
Seus filhos, juntamente com todos os habitantes do povoado, resolvem abandonar o lugar cansados e doloridos das maldades daquela mulher. Sozinha na cidade, sem ter para quem desferir sua raiva, encontra um pombo-correio preso numa gaiola, certamente esquecido por algum morador. Passa, então de destilar toda sua maldade no pássaro. Passa a divertir-se dando-lhe para comer, todos os dias, migalhas de pão molhados em molho de pimenta. Para beber, água com vinagre. Para mudar a rotina, um dia arrancava-lhe penas, em outro torcia-lhe os dedos.
Quando o pombo estava à beira da morte, a mulher, desesperada por não ter mais ninguém com quem implicar, resolve curá-lo. Depois de salvo, manda o pássaro levar um recados aos seus filhos e os demais moradores para que voltem, pedindo desculpas por suas maldades. Todos, acreditando na regeneração da mulher, voltaram.
Em pouco tempo a malvada voltou a ser o que era: ‘‘Esmurrava os filhos, mordia as orelhas dos carpinteiros, apagava seu charuto no umbigo dos taxistas, distribuía cascudos nas cabeças das crianças, pontapés nas velhinhas (...) arranhava com suas enormes unhas as trombas dos elefantes, torcia o pescoço das girafas e comia vivas as coitadas das aranhas venenosas.’’
O terror continuou até um velhinho teve uma grande idéia: ‘‘Quando ela nos bater, nós agradecemos. Se morder nossas orelhas, pedimos que faça novamente. Se nos arranhar, dizemos que é a coisa mais gostosa que já sentimos em toda a vida.’’
Com o conflito eliminado, elogiada em cada um de seus atos, a mulher viu todos seus acessos de raiva anulados. Toda sua ira perde o sentido e sem sentido sua maldade perde sua graça.
Aparentemente violenta, na realidade a bem-humorada história de ‘‘A Pior Mulher do Mundo’’ mostra como existem situações - e pessoas - que vivem apenas através do conflito, da contrariedade. O simples beliscar alguém que não gosta de ser beliscado. O simples chamar alguém de bobo justamente porque tal pessoa odeia ser chamada de boba, ou o inverso, não chamar uma pessoa de feia que adora ser chamada de feia.
As simples pirraças infantis podem crescer, e invariavelmente crescem, tornando-se adultas.
(M.L.)
• A Pior Mulher do Mundo - de Francisco Hinojosa, ilustração de Rafael Barajas, Editora Nova Fronteira, tradução de Ecila Azevedo Grunewald, 40 páginas, R$ 13,00.

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