São Paulo - ''O segredo de permanecer jovem é viver honestamente, comer devagar e mentir sobre sua idade'', dizia a rainha da comédia Lucille Ball. Talvez apenas por isso não estivesse celebrando seus cem anos. Para fazer piada, diria que são só 99.
A pioneira das comédias americanas teria ainda outro marco a comemorar: os 60 anos da exibição do primeiro episódio de ''I Love Lucy'', em 15 de outubro de 1951. No Brasil, a série foi exibida pelo SBT nos anos 1980.
As duas datas espalharam eventos pelos EUA, principalmente em sua cidade natal, Jamestown, em Nova York. Lá acontece o Lucy Fest, festival de comédia que a atriz pediu para ser criado antes de morrer, em 1989, aos 77.
No rádio, Gregg Oppenheimer, filho de Jess Oppenheimer, um dos criadores de ''I Love Lucy'', dirigirá uma performance de ''Meu Marido Favorito'', precursor do sucesso da dona de casa atrapalhada consagrada na televisão.
Além disso, sai em reedição de luxo ''Desilu: The Story of Lucille Ball and Desi Arnaz'', de Coyne Stephen Sanders e Tom Gilbert, com bastidores da vida do casal. Até uma boneca será lançada nos EUA. Com edição limitada, fala e imita as roupas da personagem.
No Brasil, as comemorações serão tímidas, mas a data não passará em branco. A Paramount lança em DVD, no dia 23, a terceira temporada do seriado, com o bebê Ricky.
Seriado precursor
O talento de Lucille Ball não se resumiu a provocar gargalhadas com a destrambelhada Lucy. A TV de 60 anos atrás era um meio tecnicamente restrito, e a inventividade necessária para verter um show de rádio em programa de TV fez de ''I Love Lucy'' a mãe de um gênero, a ''sitcom'', que parece eterno.
Nascia ali a comédia do cotidiano, formato com episódios de 25 minutos, cenários reduzidos a poucos espaços, diálogos na forma de duelos cômicos e sobreposição entre atores e personagens.
A fórmula que consagrou ''I Love Lucy'' pode ser vista numa legião de seguidores, de ''A Feiticeira'' a ''Two and a Half Men'', passando por ''Friends'' e ''The Office''.
Antes de isso acontecer, as condições para a ''sitcom'' nascer vieram um tanto por causa de exigências feitas pela atriz. Ela quis que a produção fosse em Los Angeles em vez de Nova York, onde estavam as emissoras de TV.
Também negociou a contratação do diretor de fotografia Karl Freund, autor das imagens do clássico ''Metropolis'', de Fritz Lang. Freund contornou a limitação da TV ao vivo com o registro em película feito com três câmeras, focalizadas em cada personagem e no conjunto da cena.
A edição posterior do material filmado em variedade de ângulos ofereceu um ritmo ágil, próprio da comédia.
A isso se juntou o registro das risadas, que agregam vivacidade e impelem a rir até do que tem pouca graça.
Esse modo de produção definiu a linguagem e foi convertido num modelo que dominou até os anos 90, quando a HBO libertou a ''sitcom'' até das gargalhadas engarrafadas, pôs as cenas nas ruas e locações e passou a ser copiada pela concorrência.

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