A mulher do humor fatal
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de dezembro de 1997
Marcos Losnak Especial para Folha2 
Certo dia, ao chegar em casa, a escritora norte-americana Dorothy Parker encontrou o marido morto. Suicídio por ingestão de altas dose de barbitúricos e álcool. Depois de o corpo ser levado numa ambulância, a vizinha, toda educada, pergunta se Dorothy precisava de alguma coisa. Sua resposta séria e natural: preciso de um novo marido.
Dorothy Parker era um vidro de pimenta. Seu humor negro, suas palavras ácidas, provocativas e irônicas eram marca registrada. Polêmica, viveu num universo literário onde as mulheres eram praticamente inexistentes. Com sua forte personalidade, foi um dos expoentes, ao lado de Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald, da nova e emergente literatura norte-americana que tomou impulso na década de 20. Contista, realizou dezenas e roteiros para Hollywood e peças teatrais para a Broadway. Chegou a ser a escritora mais bem paga dos estúdios hollywoodianos.
A Editora Civilização está lançando a biografia A Extravagante Dorothy Parker escrita pela jornalista Dominique de Saint Pern. A obra é um painel da ascensão e queda de uma mulher que assumiu posições ousadas para o universo feminino da época. Dentro desta ascensão e queda maior, são visíveis centenas de pequenos altos e baixos que revelam a conturbada fotografia da vida desta mulher extravagante.
Dorothy Parker nasceu em 22 de agosto de 1893. Perdeu a mãe ao cinco anos de idade. Logo em seguida seu pai casou-se novamente, dando à pequena Dorothy uma madrasta amarga. Com pouco mais de 20 anos casa-se com o soldado Eddie Parker, de quem adotaria o sobrenome. Alguns dias após o casamento, Eddie embarca para Primeira Guerra Mundial. Quando volta do front viciado em morfina, o casamento não resiste. Este não seria o primeiro nem o último casamento desfeito. Viriam muitos outros.
Dorothy teve uma vida agitada, carregada de álcool e literatura, loucuras e fracassos. Assistiu grande parte de seus amigos e amados morrerem de maneira trágica. Suicídios, excesso de álcool, acidentes. Ela própria sobreviveu a algumas tentativas de suicídio e fez da bebida sua melhor companhia. Levou ao pé da letra a afirmação de Bernard Shaw: Quanto mais conheço os homens, mais amo meu cão. Teve dezenas de cachorros e tratava-os como grandes amigos.
Seus últimos anos de vida - morreu em 1967, aos 74 anos - passou sozinha corroída pela melancolia, sem dinheiro e acompanhada de garrafas e garrafas de gin. Curiosamente deixou os direitos autorais de seus livros e peças para Martin Luther King, que não a conhecia.
Mulher polêmica, suas cinzas foram empurradas de lá para cá, até ficarem esquecidas numa gaveta de escritório por 20 anos. Ninguém sabia o que fazer com seus os restos mortais. Ironicamente, dizia que um dos epitáfios que desejava em seu túmulo era Desculpem-me pela poeira.
A Extravagante Dorothy Parker - de Dominique de Saint Pern, Editora Civilização Brasileira, tradução de Glória de Carvalho Lins, 354 páginas, R$ 27,00.


