A MPB radiografada
Nelson Sato
De Londrina
O baú da MPB permanece tampado. Com vários títulos editados apenas em vinil, a música popular brasileira é ainda uma fonte de tesouros intocados pela era do compact disc.
O lançamento no começo do ano da caixa Ensaio Geral, incluindo 5 CDs com material raro e inédito de Gilberto Gil, mostrou que há muito mais do que álbuns oficiais mofando nos arquivos das gravadoras.
Mas qual é, afinal de contas, a dimensão dessa lacuna? Que artistas já contam com suas discografias completas disponíveis em laser? É possível já reter um panorama da produção fonográfica pátria ouvindo apenas o que foi lançado em CD?
O crítico Antonio Carlos Miguel, do jornal O Globo, responde em parte essas questões no Guia de MPB em CD. O livro, em formato de bolso, chega ao público pela editora Jorge Zahar como parte de uma série que já publicou um volume similar de música clássica e prepara títulos dedicados ao rock e ao jazz.
Nas páginas, Miguel reúne indicações e comentários de cerca de 500 CDs de 150 compositores e intérpretes, apresentando ainda uma pequena biografia de cada artista enfocado. Vai de Pixinguinha a Chico Science. É, obviamente, um trabalho com risco de ficar defasado na próxima estação.
É capaz também de lesar o consumidor incauto levando-o, através da capa, a achar que vai encontrar um levantamento completo do que já existe no gênero em CD, o que não é o caso. A seleção dos artistas partiu do significado genérico de MPB, não se limitando ao sentido original da sigla que abarcaria apenas a produção pós-bossa nova dos músicos surgidos durante a época dos festivais.
Vai daí que desfilam nomes como Ary Barroso, Ataulfo Alves, Carmen Miranda, Chiquinha Gonzaga, Araci de Almeida, Francisco Alves, Ismael Silva, Lupiscínio Rodrigues, Noel Rosa, Orlando Silva, Pixinguinha e Silvio Caldas. Nem todos os ritmos, porém, foram contemplados. Ficaram de fora as manifestações regionais, o rock brasileiro, a música instrumental, o axé e o pagode dos anos 90.
Mesmo assim, alguns artistas ligados inicialmente a esses segmentos foram lembrados por conta, segundo o autor, da influência que exerceram na MPB ou por terem transcendido seus gêneros iniciais. É o caso de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, por exemplo, que inspiraram toda a turma de nordestinos surgida na MPB dos anos 70.
Lulu Santos e Cazuza, dois nomes revelados no pop/rock dos anos 80, também são catalogados no Guia por terem ultrapassado essa fronteira e dialogado com os ilustres da MPB. No texto introdutório, o crítico lembra que por questão de espaço o número de CDs indicados e comentados teve que ser reduzido, o que o obrigou a sacrificar a obra de Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento e de outros artistas de renome que já têm suas discografias completas (ou quase) editadas em compact disc.
Optou, nesses casos, por cobrir as diversas fases da carreira de cada um deles. Já para um artista como Roberto Carlos, a preferência recaiu sobre os álbuns lançados nos anos 60 e 70. A razão alegada pelo crítico é que a partir dos anos 80, a produção do rei se pautou pela repetição, com o que não há como discordar.
Mas algumas de suas escolhas e opiniões são discutíveis. Ao abordar os CDs de Rita Lee, por exemplo, sequer menciona o álbum Fruto Proibido (que talvez seja o mais empolgante da fase setentista da cantora) preterindo-o em favor de outros 7 títulos.
Quando elege os CDs de Marina Lima, aponta com acerto o álbum homônimo da cantora lançada em 1991 como o melhor de sua carreira, mas logo em seguida derrama-se em elogios ao último e sofrível Pierrot do Brasil, onde os problemas que ela enfrenta com as cordas vocais gritam a cada sílaba mal emitida.
Há controvérsias, como se vê. O autor aproveita o prefácio do volume para atacar o descaso da indústria fonográfica em relação à MPB. Num trecho, ele diz: As grandes gravadoras passaram a concentrar suas vendas nas lojas de departamentos e supermercados, pontos comerciais que privilegiam discos de grande sucesso, reduzindo drasticamente as opções de títulos.
Em outra passagem, anota: A política de algumas gravadoras de apostar apenas em megassucessos discos com vendas acima de um milhão de cópias vem se mostrando nefasta e gerando um círculo vicioso. As gravadoras passam a dar descontos em determinados títulos para estimular as vendagens, inviabilizando a comercialização dos discos de artistas de menor peso no mercado. Os lojistas endividados não arriscam a compra daqueles discos de venda lenta, sobretudo porque são oferecidos a preços mais altos do que os tchans da vida. Assim, muitos álbuns nem mais conseguem chegar ao mercado.
O diagnóstico é devastador. Mas os artistas resistem. É o que registra este Guia da MPB em CD, que acaba compondo um painel da produção fonográfica de uma das mais ricas músicas do planeta.Chega ao público um guia de CDs com indicações e comentários de cerca de 500 títulos de 150 compositores e intérpretes da música popular brasileira
ReproduçãoArquivo FolhaA discografia de Roberto Carlos recaiu sobre os anos 60 e 70, já que nas décadas seguintes o rei se repetiuArquivo FolhaPor ter ultrapassado a fronteira pop/rock, Cazuza é apontado como um dos ilustres da MPBArquivo FolhaA obra de Marina Lima é merecedora de fartos elogios, inclusive ao melancólico e sofrível Pierrot do Brasil, de 98Arquivo FolhaCarmen Miranda é apresentada como o principal símbolo da cultura popular brasileira no mundoArquivo FolhaLuiz Gonzaga foi descrito como um dos formadores de opinião principalmente à turma de nordestinos surgida nos anos 70





