A morte ronda a segunda voz
Com a morte de Leandro silencia a segunda voz da dupla que ele formava com Leonardo, assim também aconteceu com João Paulo que cantava com DanielA MORTE RONDA
A SEGUNDA VOZ
Estranha coincidência:
cantores que fazem a
segunda voz nas duplas
sertanejas quase
sempre morrem primeiro
Zeca Corrêa Leite
Curitiba
Que leis comandam as mortes dos cantores que fazem a segunda voz em duplas sertanejas? A pergunta pode parecer precipitada, mas o falecimento de Leandro na terça-feira passada, veio a engrossar uma lista onde, coincidentemente, sobreviveram aqueles que faziam (ou fazem) a primeira voz. Num levantamento aleatório várias duplas foram pesquisadas - e em todas elas o cantor da segunda voz morreu antes que o companheiro.
O caso mais recente, antes de Leandro e Leonardo, envolveu os amigos João Paulo e Daniel. Como se sabe, um acidente automobilístico pôs fim à carreira do duo. Hoje Daniel faz carreira solo, embora ainda esteja muito presente a sombra do companheiro.
O cantor Dalvan tenta reconquistar o sucesso de anos atrás, quando o nome Duduca e Dalvan era sinônimo de vendagem. Duduca, que fazia a segunda voz, morreu. O mesmo aconteceu com Vieira e Vieirinha - Vieirinha era a segunda voz; Jacó e Jacozinho - Jacó era a segunda voz; Silveira e Barrinha - este último fazia a segunda voz; duo Belmonte e Amaraí - a segunda voz era de Belmonte; Nenete e Dorinho - Nenete era a segunda voz.
Raul Torres era a segunda voz da dupla Torres e Florêncio. Autor de clássicos sertanejos como Cabocla Teresa, Pingo Dágua e Moda da Mula Preta, todas em co-autoria com João Pacífico, foi o primeiro a morrer em 1970. Sulino e Marrueiro, duo formado em 1945, tinha em Marrueiro a segunda voz. Sulino, que ajudou a enterrar o amigo, não foi somente músico - escreveu peças de sucesso levadas em circos de todo o País como a Volta do Boiadeiro, Quatro Caminhos, Vingança se Escreve com Sangue e Cada Bala uma Sepultura.
Cascatinha e Inhana já morreram, mas Inhana, que era a segunda voz, se foi antes, vitimada pelo câncer. A história dos dois intérpretes que deixaram grandes sucessos para a posteridade, remonta ao ano de 1937 quando o jovem cantor de modinhas e valsas Francisco dos Santos viu chegar à cidade (Araraquara, SP) o Circo Nova Iorque.
O rapaz foi convidado a formar duo com Chopp, um dos artistas do circo. Para ter os nomes combinados ele escolheu o de Cascatinha, que era a marca de uma cerveja da época. Em 1941 Ana Eufrosina da Silva, a Inhana, juntou-se ao grupo quando se casou com Cascatinha. O trio passou a chamar-se Esmeralda. Durou pouco: Chopp deixou o conjunto e a dupla permaneceria unida nos próximos 40 anos.
À lista incluem-se ainda outras celebridades como Zé Carreiro e Carreirinho, Tião Carreiro e Pardinho, Nhô Belarmino e Nhá Gabriela. Zé Carreiro (segunda voz) e Carreirinho formaram o duo em 1947, depois de passarem por outras formações. Uma curiosidade: eles tiveram esse batismo através de concurso promovido pela Rádio Record de São Paulo. Carreirinho era compositor - dele ficou o cururu O Canoeiro, que Tonico e Tinoco gravaram com grande sucesso.
Nhô Belarmino, da dupla Nhô Belarmino e Nhá Gabriela, era compositor. Foi o criador de Mocinhas da Cidade, uma das faixas do primeiro LP, lançado nos anos 50 que fez enorme sucesso e transformou-se na marca registrada de sua carreira. Hoje tanto um quanto outro estão mortos, mas Belarmino se foi antes. Mais uma vez era a segunda voz a silenciar antes da primeira.





