A MORTE PELO EXCESSO DE VIDA
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de junho de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
O mito está nu? Em termos. A publicação da biografia de Paulo Leminski (1944 - 1989) retira uma série de roupas da imagem do poeta curitibano com destreza. Ao mesmo tempo, não toca em pequenos tecidos que permanecem encobrindo alguns poros do corpo do mito. De autoria do jornalista Toninho Vaz (Antonio Carlos Martins Vaz), Paulo Leminski - O Bandido Que Sabia Latim terá lançamento oficial em Curitiba, na terça-feira, na Livraria Ghignone.
Publicado pela Editora Record, a obra nasceu com ares de biografia oficial. Surgiu da iniciativa de Alice Ruiz, ex-mulher de Leminski, que convidou Toninho Vaz para o desafio. Após dois anos de pesquisas, o trabalho chega às livrarias com a promessa de preencher as lacunas da vida do poeta.
O Bandido Que Sabia Latim vai além de uma biografia oficial. Traça um retrato do poeta sem omissões, narra sua ascensão intelectual e queda física provocada pelo álcool. Detalhes polêmicos e incômodos são apresentados sem pudores. Por opção própria, Toninho Vaz colocou sua atenção na tentativa de fornecer elementos que possam explicar a existência e a personalidade de um intelectual tão singular e criativo como Paulo Leminski. Afirma o autor que o livro não pretende discutir a obra do biografado essa tarefa deve ser feita pelas mãos dos críticos literários.
Nesse sentido, Vaz perdeu uma ótima oportunidade de realizar um trabalho mais completo. Isso porque a vida e obra de Leminski são inseparáveis. Seguindo as palavras de Antonin Artaud, o poeta soldou sua vida à arte de tal maneira que seria impossível separá-las. Ele próprio cansou de dizer que não era poeta de fim de semana, mas de tempo integral 24 horas por dias, sete dias por semana, doze meses por ano. Que sua vida estava totalmente direcionada à poesia.
Mesmo assim é inegável a importância de O Bandido Que Sabia Latim. Além de traçar um painel de Leminski, a obra faz um retrato de uma geração que apostou todas as fichas numa existência verdadeira e sincera, fosse na arte ou na vida. Por isso, em alguns casos, pagou um alto preço. Alto porque a sociedade não estava preparada (e talvez ainda não esteja) para aceitar pessoas que colocam todas as forças em seus ideais, como uma pedra rolando montanha abaixo. E mesmo quando descobrem que estão no caminho errado, tentam retirar do sofrimento a essência mais nobre.
Se por uma lado a biografia quebra alguns elementos da figura do mito, também reafirma a categoria de mito para Leminski. Insere-o na galeria dos poetas viscerais que passaram pela vida como um furacão criativo, ordenando a desordem à sua volta e insuflando as pessoas a viverem com intensidade em cada detalhe do cotidiano. Coloca-o na tradição dos artistas que consomem a própria energia de maneira veloz e depois morrem ou se matam. O sentido trágico assume o lugar do sentido dionisíaco. A vida é demais para o poetas.
Quando a vida busca intensidade, ela acelera o passo e chega mais rápido ao seu objetivo último, a morte. Dito dessa forma pode parecer algo simples e, de certo modo, frio. Mas a busca se encarrega de acumular todo o sentido e sentimento da existência. Assim, a poesia produzida por Paulo Leminski é sua vida em estado estético.
O livro de Toninho Vaz elucida alguns equívocos e sustenta outros. Demonstra, por exemplo, que o cachorrolouco nasceu realmente em Curitiba. Isso porque o próprio poeta chegou a declarar, em várias situações, que havia nascido em Itaiópolis, Santa Catarina, e mudado para Curitiba ainda pequeno. Por outro lado, sustenta o equívoco de que Leminski teria traduzido Folhas das Folhas de Relva de Walt Whitman. Publicado em 1983 pela Editora Brasiliense, Folhas Das Folhas de Relva foi, na verdade, vertido para o português por Geir Campos. Leminski apenas escreveu o prefácio da edição, um texto de quatro páginas. Trata-se de um erro recorrente, veiculado pela imprensa durante anos.
Após a leitura de O Bandido Que Sabia Latim o leitor pode ficar com a sensação de que Paulo Leminski morreu prematuramente porque cometeu erros. Uma sensação estranha. Como se a vida de cada pessoa pudesse ser valorizada apenas pelos acertos e não pelos erros. No caso de Paulo, bem como em relação a dezenas de artistas que colocaram a vida em risco em nome da intensidade de criação, isso parece deslocado de um ponto de vista mais lúcido.
A auto-destruição faz parte da vida que o poeta escolheu viver e sua obra está totalmente vinculada a esse processo. Sua vida foi o que foi, alegria e dores, nada mais. E seus versos, frutos dessa experiência de vida. Em toda sua obra fica evidente o otimismo em abordar a existência, até mesmo nos assuntos mais dolorosos. Isso pode demonstrar que Paulo se relacionou com a arte e com as pessoas com sua melhor energia luminosa. Consigo mesmo utilizou a energia que caminhava em outra direção, nas sobras negras e destrutivas. Algo próprio das pessoas mais sensíveis, mesmo que não estejam consciente disso.
Mesmo apresentando os fatos sem realizar uma leitura mais aprofundada de seus significados, O Bandido Que Sabia Latim é uma biografia bem realizada. Uma das opções adotadas pelo autor foi a de entregar subsídios para que cada leitor realize sua própria leitura mesmo que pautada pelas informações fornecidas.
Após as últimas páginas resta a dúvida: por que Paulo procurou a morte? Algumas pistas são lançadas em alguns depoimentos, mas nada determinante. Esse foi o grande segredo que ele levou consigo. Fica claro a idéia de suicídio sumário. Mesmo rodeado de pessoas que o amavam, foi corroído por uma dor incontrolável e profundamente íntima. Caminhou de maneira consciente para a morte, como se quisesse dizer: Me deixem em paz, fiquem com meus versos.
Paulo Leminski - O Bandido Que Sabia Latim - De Toninho Vaz, Editora Record, 380 páginas.


