Arquivo FolhaO português José Saramago continua a produzir as mais belas páginas da literatura mundialEnquanto espera, ao lado de João Cabral de Melo Neto, ser o primeiro escritor de língua portuguesa a ser agraciado com o prêmio Nobel de Literatura, o português José Saramago, aos 72 anos de idade, continua a produzir as mais belas páginas da literatura mundial. Seu último livro ‘‘Todos os Nomes’’, lançado pela Companhia das Letras, é um romance psicológico onde vida e morte se tornam um carimbo burocrático na mesa de uma lógica absurda. Onde a total falta de sentido da vida se contrasta com o sentido exato e preciso da morte.
José Saramago, em sua ideologia literária, não realiza ponto sem nó. Em cada obra deixa claro sua batalha com as forças que tornam os homens mesquinhos de sua própria humanidade. Trata-se de um raro escritor do conturbado século 20 que, com lâmina afiada, disseca as anomalias de um tempo que se mantém pela falsidade ideológica, pela falsificação da própria vida.
‘‘Todos os Nomes’’ narra a história de Sr. José, um humilde escriturário da centenária Conservatória Geral do Registro Civil - em outras palavras, um cartório que acumula todos os registros de nascimentos, batismos, casamentos, divórcios e óbitos da cidade. O arquivo do lugar é assustador, sombrio, dividido em duas partes, o setor dos vivos e o setor dos mortos. Quando Sr. José precisa consultar, ou depositar, uma pasta no setor dos mortos, utiliza um ‘‘fio de Ariadne’’: amarra um barbante no tornozelo e entra pelo arquivo labiríntico. Para conseguir encontrar o caminho de volta, segue o barbante até a saída.
Sua vida é totalmente desprovida de sentido. Solitário, sem amigos, solteiro, sem família. Um homem que possui apenas um entretenimento na vida, colecionar fotografias de personalidades famosas recortadas e jornais e revistas. Cada personalidade possui sua própria pasta. Ele as divide em dois grupos, as mais famosas e as menos famosas. Como anônimo, precisa criar mecanismos para que sua própria vida possua sentido, ou melhor dizendo, para que haja algum sentido em continuar vivendo.
Morando ao lado da Conservatória utiliza uma porta de comunicação secreta para invadir o arquivo durante a madrugada para colher dados pessoais para completar sua coleção. Certo dia, furta uma pasta errada do arquivo, os dados de uma mulher desconhecida.
Esta pasta que lhe cai na mão por obra do acaso lhe apresenta uma nova situação, bizarra mas palpável. Sr. José cria então um novo sentido para sua existência: de investigar a vida desta mulher, colecionar detalhes sobre esta desconhecida, desprovida de qualquer tipo de fama. Para satisfazer esta pequena obsessão, ele violará sua conduta pessoal cultivada ao longo de seus 50 anos. Nada mais do que subversão do indivíduo em face da opressão das autoridades, onde cada pessoa é um número, um nome, um parafuso da grande máquina que pode ser trocado sem nenhum dispêndio.
‘‘Todos os Nomes’’ possui um ritmo lento, como se a pressa narrativa fosse inimiga da perfeição. No caso de Saramago, a pressa revela-se inimiga da perfuração. A perfuração da superfície existencial, a camada inicial que cobre o aniquilamento da virtude humana em nome da violenta busca de poder. Lentamente o texto retira as camadas de verniz, as camadas de tintas para descrever, com a dádiva da metáfora, a vida caótica caminhando para a morte ordenada. As manipulações são as fachadas das casas, o designer dos carros, a embalagem dos pacotes de ração, a maquiagem das intenções, os documentos escritos como alegorias de objetivos desprovidos de ética.
O livro ‘‘Todos os Nomes’’ pode ser encarado como um competente diálogo com Franz Kafka, onde as saídas existenciais deformam parte dos neurônios, ocultam o indivíduo como órgão para utilizá-lo como célula. Milênios de dor acumulada na memória. Só o tempo dirá em que cada um foi transformado.

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