A morte não interessa aos vivos. Pelo menos até eles completarem 60 anos de idade. Após essa marca, o organismo começa a enviar telegramas esparsos com mensagens de que a Senhora Morte está chegando. Aos que se recusam a receber os recados, as mensagens surgem de outras formas.
Imagine alguém telefonando para todos os velhinhos da cidade deixando uma mensagem curta e direta: ''Lembre-se que vai morrer''. Mais nada. Foi justamente essa a maneira que a escritora britânica Muriel Spark utilizou para focalizar a velhice em seu romance ''Memento Mori''. Lançado pela Companhia das Letras, o livro, escrito em 1959, marcou o início do sucesso literário de Spark.
O próprio título da obra, ''Memento Mori'', é uma antiga expressão latina que significa literalmente ''lembra-te que hás de morrer''. Era utilizada para lembrar as pessoas que suas vidas poderiam ser diferentes, mas todas culminariam na morte. E que a morte seria uma conclusão natural da existência.
O romance de Muriel Spark conta a história de um grupo de idosos amigos desde a juventude. Todos eles já passaram dos 60 ou dos 70. Alguns deles residem em asilos ou casas de repouso. Outros ainda permanecem em casa com alguma enfermeira de plantão. Os assuntos que preenchem o cotidiano de cada um é sempre o mesmo: doença, medicamento, enfermeira, novos asilos e herança. Mesmo nesse contexto, não encaram a morte de frente. A situação muda de figura quanto passam a receber telefonemas anônimos dizendo para não esqueceram que vão morrer. O incômodo é geral. Resolvem, então, se unir para tentar descobrir quem seria o responsável pelos misteriosos telefonemas.
Na realidade, a mensagem desperta a consciência de cada um para a fatalidade da existência. Embora considerem os telefonemas um ato criminoso, sabem que o recado é verdadeiro. Todos estão a caminho da morte e precisam lembrar disso. No fundo, percebem que ter mais de 70 anos é como estar numa guerra: ''Todos os nossos amigos estão indo ou já foram, e nós sobrevivemos entre os mortos e moribundos, no meio do campo de batalha.''
A perspectiva da proximidade da morte leva o grupo a lavar a roupa suja do passado. Perdendo a postura de clássicos cidadãos britânicos, começam a apontar os podres uns dos outros, bem como de si mesmos. Tudo vem à tona, quem foi amante de quem, quem sujou com quem, quem tirou a herança de quem, quem passou e quem foi passado para trás. O trágico da situação é substituído pela ironia e pelo humor.
Uma hora ou outra os velhinhos e velhinhas se deparam com a presença do fim. Aí, alguma coisa acontece: ''Se eu fosse viver de novo, formaria desde cedo o hábito de toda noite pensar um pouco a respeito da morte. Eu praticaria, por assim dizer, a lembrança da morte. Nenhuma outra intensifica tanto o sentido da vida. A morte, quando se aproxima, não deveria pegar ninguém de surpresa. Sem o sentido sempre presente da morte, a vida torna-se insípida. É a mesma coisa que viver na clara de um ovo.''
Muriel Spark, nascida em 1918 na Escócia, possui grande popularidade junto ao leitor inglês. Sua extensa obra compreende livros de poesia, contos, ensaios, romances e histórias infantis. Algumas de suas histórias chegaram a ser transformada em filmes. Pelo seu bom comportamento, foi agraciada com o título de ''Dama do Império Britânico''.
Embora ''Memento Mori'' focalize uma temática pouco usual, revela-se um romance desigual. Muriel Spark ou Dame Spark, como geralmente é chamada começa sua narrativa de maneira sedutora e depois cai num ritmo cansado, como se locomovesse a passos lentos. Só no final retoma a intensidade para concluir a história. Assim, o miolo da obra é abatido por uma espécie de sonolência.
Talvez a escritora optou deliberadamente por tal ritmo na tentativa de reproduzir a atmosfera temporal relativa à idade dos personagens. Ou procurou demonstrar como mais nada pode acontecer na existência de um idoso. Mas tudo isso contradiz o próprio sentido que Muriel Spark confere à história narrada. Como se o cansaço narrativo não fizesse sentido na última etapa da vida, na velhice que traz pelas mãos um ponto final. Afinal, lembrar da morte é uma forma de viver. (M.L.)

Memento Mori, de Muriel Spark, Editora Companhia das Letras, tradução de Beth Vieira, 256 páginas, R$ 28,00.

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