‘‘Nada é mais engraçado que a infelicidade’’, segundo Beckett. Não seria o caso de morrer de rir diante da desgraça, mas de tratar com ironia a incapacidade de felicidade do homem moderno. A miséria humana e a impotência em revertê-la, seriam evidências de que o fracasso é um fantasma que assombra o mundo contemporâneo.
O escritor irlandês Samuel Beckett (1906 - 1986) fez da solidão, da miséria e da impotência temas constantes de sua literatura. Um dos escritores mais amargos, e ao mesmo tempo irônico do século 20, tornou-se referência estilística como romancista e dramaturgo. Deixou claro que o grande assunto de seus textos era o fracasso. O fracasso humano diante de princípios básicos da existência.
Beckett teve suas obras mais significativas publicadas no Brasil nas décadas de 70 e 80 – ‘‘Esperando Godot’’ (Abril Cultural, 1976), ‘‘Malone Morre’’ (Brasiliense, 1986), ‘‘Molloy’’ (Nova Fronteira, 1987); ‘‘Primeiro Amor’’ (Nova Fronteira, 1987) ‘‘O Inominável’’ (Nova Fronteira, 1989). Depois permaneceu na geladeira das editoras por mais de uma década. Agora, por iniciativa da Cosac & Naify, ‘‘Fim de Partida’’, seu mais cultuado texto teatral, ao lado de ‘‘Esperando Godot’’, recebe edição brasileira.
‘‘Fim de Partida’’ (também conhecido como ‘‘Fim de Jogo’’) apresenta quatro personagens isolados num casa, sem comida, sem medicamentos. Num cenário desolador, vivem um momento pós-apocalíptico. Só lhes resta esperar pela morte. Hamm, o dominador, e Clov, o servo, apresentam uma relação de mútua dependência e de total desesperança diante do futuro. Nagg e Nell, pais de Hamm, permanecem confinados em latões de lixo.
‘‘Fim de Partida’’ é construído a partir da principal característica da dramaturgia de Beckett: a ausência e total ineficiência da ação. Nesse contexto, como todo ato leva praticamente a nada, a única ação que se torna possível é a espera pelo fim. Enquanto isso, mata-se o tempo apegando-se a coisas sem nenhuma finalidade. A prática de uma existência absurda que revela o vazio absoluto e a solidão completa.
Samuel Beckett nasceu em 1906 e trocou a Irlanda pela França. Trocou não só de país, como também de língua. Numa tentativa de ‘‘escrever sem estilo’’ passou a produzir seus textos em francês para depois traduzi-los para o inglês. Assim, algumas de suas obras possuem duas versões, já que ele se encarregava de fazer alterações nos textos durante o processo. Secretário de James Joyce durante anos, em muitas situações foi apontado como seu sucessor. A verdade é que seguiu caminho próprio com uma escrita pautada pela concisão e aridez emocional.
‘‘Fim de Partida’’, escrito em 1956, apresenta um metafórico jogo onde até a própria ficção participa da partida. Com as pernas imobilizadas, Hamm precisa de Clov para permanecer vivo. Clov, cumprindo as ordens do chefe, precisa de Hamm para dar algum sentido à existência. Isso enquanto, numa relação de poder e vingança, ambos esperam a visita da senhora morte com uma boa dose de ironia. Beckett deixa claro que a sobrevivência após uma catástrofe humana, não é um ato heróico ou um presente divino. Apenas uma violência a mais, muito maior que aquela sofrida pelos que padeceram como vítimas.
Ler Beckett, em especial os romances, é uma experiência que permanece presa no peito. Como se uma pedra fosse instalada na caixa torácica do leitor e fizesse questão de mostrar a existência do corpo a partir do incômodo da solidão, do peso da impotência diante do vazio, diante da dor. E a esperança, um antigo filme que não faz mais sentido.
Serviço
‘‘Fim de Partida’’ de Samuel Beckett, Cosac & Naify Edições, tradução e apresentação de Fábio de Souza Andrade, 178 páginas, capa dura, R$ 30,00.




Clov – Há tantas coisas terríveis.
Hamm – Não, não, não há mais tantas assim. (Pausa) Clov.
Clov – Fale.
Hamm – Você não acha que isso durou o bastante?
Clov – Acho! (Pausa) O quê?
Hamm – Esse... essa... isso.
Clov – Sempre achei. (Pausa) Você não?
Hamm – (abatido) Então é um dia como os outros.
Clov – Enquanto durar. (Pausa) A vida toda as mesmas tolices. (Pausa)
Hamm – Eu não posso deixar você.
Clov – Eu sei. Nem pode me seguir. (Pausa)
Hamm – Se você me deixar, como vou ficar sabendo?
Clov – (vivamente) É só você apitar. Se eu não vier, é porque fui embora. (Pausa)
Hamm – Você não vai se despedir?
Clov – Ah, acho que não. (Pausa).
Hamm – Mas você poderia estar simplesmente morto na sua cozinha.
Clov – Daria no mesmo.
Hamm – É, mas como vou saber se você não está simplesmente morto na sua cozinha?
Clov – Bem, mais cedo ou mais tarde, eu vou feder.
Hamm – Você já fede. A casa toda já fede a cadáver.
Clov – O universo todo.
Hamm – (com raiva) Que se dane o universo! (Pausa) Pense em alguma coisa.
Clov – O quê?’’
(Fragmento de ‘‘Fim de Partida’’)

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