Talvez a literatura seja uma gangorra de parque infantil. Durante a noite, quando o silêncio reina entre sombras, os escritores invadem o parque, todos querendo usar a gangorra. De um lado sentam-se aqueles que praticam fórmulas fáceis e certas de sucesso, oferecendo ao leitor um mundo certo e seguro e, se possível, coberto de açúcar. Do lado oposto sentam-se os escritores que experimentam algo mais, que exercitam suas mentes para levar novas sensação ao leitor. A gangorra oscila, de um lado para outro, mas sempre no fim da noite os escritores do primeiro grupo sorriem no alto, balançando os pezinhos.
Nesta gangorra, independente de qual parque do mundo ela esteja, o escritor e jornalista paulista naturalizado curitibano Valêncio Xavier pertence ao grupo que termina todas as noites com os dois pé no chão. Autor de uma obra extremamente original mas de circulação restrita, Valêncio começa a ver, aos 65 anos de idade, seus trabalhos deixarem os porões da literatura para respirar a luz do dia nas mão de um público maior.
Sempre unindo o verbal e o iconográfico em suas narrativas, o primeiro impacto que sua obra provoca é o estranhamento. Suas histórias trafegam entre o aparentemente comum e o aparentemente bizarro, em vários casos, coroadas com a cereja de morbidez. São estranhas, limpidamente esquisitas. Dão impressão de pertencerem a um mundo próprio, distante e particular. São concisas e ao mesmo tempo descontínuas. Percorrem com obsessão os corredores de dois temas básicos, morte e sexo. Enigmas e segredos ocultos percorrem suas histórias como crianças correndo em hora do recreio. Suas narrativas utilizam, invariavelmente, a grafia da língua portuguesa em vigor nas primeiras décadas deste século.
Recentemente a Editora Companhia das Letras lançou uma edição reunida com cinco de suas trabalhos sob o título de ‘‘O Mez da Grippe e outros livros’’, compreendendo ‘‘O Mez da Grippe’’ (1981), ‘‘Maciste no Inferno’’ (1983), ‘‘O Minotauro’’ (1985), ‘‘O Mistério da Prostituta Japonesa & Mimi-Nashi-Oichi’’ (1986) e ‘‘13 Mistérios + O Mistério da Porta Aberta’’ (1983 - 1990).
A novela (ou novella, segundo o autor) ‘‘O Mez da Grippe’’, publicado originalmente em 1981 pela Fundação Cultural de Curitiba, pode ser considerada um clássico de Valêncio Xavier. Utilizando recorte de jornais de Curitiba do ano 1918, o escritor narra o avanço da gripe espanhola na cidade. O medo da doença e as mortes são pontuados pelo desejo do narrador em unir-se sexualmente com uma mulher desconhecida, atormentada pelo estado febril.
A faculdade do escritor em narrar os fatos como se eles existissem e ao mesmo tempo não existissem, onde tudo fica no ar, onde não há possibilidades de certeza, encontra seu melhor exemplo no texto ‘‘O mistério dos sinais da passagem dele pela cidade de Curitiba’’ - que compõe os ‘‘13 Mistérios’’. A partir de uma fotografia (que tanto pode ter antecedido ou precedido o texto, que pode ser falso pelo fato de ser verdadeiro e verdadeiro por ser falso) em que aparece um monte de fezes, palitos de fósforos quebrados, pedaços de jornal rasgado e sinais de sapato, o narrador cria um homem. Tal processo, a construção do personagem, ou do homem real, é a verdadeira obra.
Para o próximo ano, a Editora Ciência do Acidente promete lançar dois novos livros de Valêncio. Em janeiro chega nas livrarias ‘‘Meu 7º Dia’’ e, na sequência, em abril, ‘‘O Corpo dos Sonhos’’.
Em ‘‘Meu 7º Dia’’, o autor utiliza gravuras bíblicas anônimas para anunciar seu sétimo dia no território da morte. Dialoga com o sentido do sétimo dia da criação do mundo por Deus: ’’? teria o Pai Eterno / a lembrança dos seus trabalhosos / seis primeiros dias e noites / a criar o dia a noite /o céu a terra o mar / e tudo que neles floresce e cresce / e tudo que neles habita / os seres e animais vivos e mortos ?’’. Também enfoca, de maneira associativa, a perda amorosa (uma espécie de morte) utilizando canções populares, e a morte autoral (onde o que morre é o sujeito da obra, não a obra). Tudo temperado pelo enigmático.
A impressão que fica é que elucidar a ‘‘novella-rébus’’ é praticamente impossível. O leitor até pode decifrar o enigma proposto pelo narrador com a ajuda de um simples espelho e alguns neurônios de lógica, mas o contexto maior exige outras chaves - que talvez não existam.
A edição de ‘‘Meu 7º Dia’’ traz prefácio de Flora Sussekind situando a obra e a linguagem de Valêncio Xavier na literatura contemporânea. A edição também traz uma entrevista realizada por Joca Reiners Terron em que o escritor fala de sua trajetória, desde seu trabalho como repórter policial até seu envolvimento com o cinema e vídeo.
Valêncio afirma que em seu processo de criação não se sujeita às rédeas da razão: ‘‘Eu nunca penso ante de escrever, meu raciocínio é posteriori... O trabalho já sai pronto - ou não sai. Eu retrabalho, mas só no sentido de ajustar as palavras, burilar, mudar uma coisa aqui e ali. Não que o processo tenha algo de sobrenatural, mas sai pronto. Não sou capaz de planejar nada.’’
A originalidade com que constrói narrativas duplas, fazendo uso de palavras e imagens, talvez seja fruto de seu desprendimento ao colocar, num mesmo nível, as imagens e as palavras: ‘‘Para mim, as imagens têm o mesmo peso que as palavras. Eu não vivo no passado, mas o passado vive em mim. E no futuro eu não penso, não posso prevê-lo. Talvez isso que eu ponho no papel, escrevo, talvez isso seja o meu passado e talvez seja o meu futuro, em que eu não penso.’’
•‘‘O Mez da Grippe e outros livros’’ de Valêncio Xavier, Editora Companhia das Letras, 325 páginas, R$ 27,00.
•‘‘Meu 7º Dia - Uma novella-rébus,’’ de Valêncio Xavier, Edições Ciência do Acidente, 56 páginas, preço não definido.Arquivo FolhaValêncio Xavier: literatura original e pertubadoraMarcos Losnak
Especial para a Folha2

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